Sobre o ensino de história das antigas civilizações – parte 3

Questões sobre o estudo da Antiguidade no Brasil

por Pedro Paulo A. Funari, Renata Senna Garraffoni e Glaydson José da Silva

Sobre o primeiro autor[1]

Sobre o segundo autor[2]

Sobre o terceiro autor[3]

O jornalista Carlos Haag, da Revista Pesquisa FAPESP, formulou questões sobre a relevância do estudo sobre a Antiguidade no Brasil para os estudiosos Pedro Paulo A. Funari, Renata Senna Garraffoni e Glaydson José da Silva, professores da Unicamp, UFPR e Unifesp, respectivamente. Os três pesquisadores contaram com substancial apoio da FAPESP, nos últimos anos, assim como de outras agências de fomento como CNPq, Capes, Fundunesp, Faepex/Unicamp, National Science Foundation, National Geographic Society, British Academy, World Archaeological Congress, entre outros, com muitos livros e artigos publicados no estrangeiro e no Brasil. Apresentamos, a seguir, essa troca de idéias.

1. Qual é a relevância de se estudar História Antiga no Brasil e de como os brasileiros podem contribuir, aqui, para esse estudo tão internacionalizado?

GJS: A história do mundo antigo esteve na base da constituição do pensamento ocidental e só por esse motivo já se justificaria nos debruçarmos sobre ela. Compreender a história da Antiguidade é compreender também a nossa história. Dos antiquários e colecionadores da Europa renascentista aos embates historiográficos e à institucionalização da disciplina no XIX, a História Antiga na Europa esteve indissociada de reflexões acerca da identidade nacional de diferentes povos, atuando nas criações e recriações de seus mitos de origem e no estabelecimento de diferentes clivagens identitárias – que ainda hoje marcam seus estudos. Em uma perspectiva não hierarquizante, pode-se perceber a especificidade e importância dos estudos feitos fora da Europa, dentre eles os brasileiros, no fato de poderem ofertar, sobretudo, um olhar distanciado para os objetos de uma história que, diretamente, não é aquela de seus proponentes, ainda que a ela se encontre ligada. É importante considerar que esse vínculo da história da Antiguidade na Europa com as histórias nacionais, ainda que estrutural, não define uma orientação da área. É de solo europeu que se originaram, sobretudo, desde meados do século XIX, as principais mudanças epistemológicas nessa área do conhecimento e a História antiga daí produzida não pode ser reduzida a uma pedagogia da nação.

PPAF: A relevância do estudo da História Antiga reside na melhor compreensão do presente e a busca por um futuro melhor. A maior parte dos valores atuais deriva de interpretações do mundo antigo (república, democracia, verdade, liberdade, mas também conceitos religiosos como pecado, julgamento final e vida eterna). Sem um conhecimento crítico da Antiguidade, somos levados e não conduzimos, nós mesmos, a leitura do passado para forjarmos um futuro a nosso juízo.

RSG: Parece que não, mas a Antiguidade sempre esteve bastante presente no cotidiano brasileiro. No século XIX, por exemplo, a legislação romana foi muito citada nos embates pela abolição dos escravos, no início do período republicano brasileiro idéias romanas também se fizeram presente. O Egito Antigo, por outro lado, era muito estudado por D. Pedro II e os reflexos de sua paixão por esse período histórico ainda podem ser percebidos nas coleções egípcias do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Hoje em dia, as informações sobre Grécia, Roma, Egito entre muitas outras civilizações antigas se espalham pelo cotidiano das crianças por meio de filmes, desenhos animados, histórias em quadrinhos, games e internet. Ou seja, em diferentes contextos históricos o mundo antigo se faz presente no cotidiano brasileiro, por meio perspectivas variadas, sejam elas políticas, educacionais ou da cultura de massa, as referências se multiplicam cada vez mais. Assim, estudar História Antiga no Brasil hoje tem dois aspectos importantes na minha visão: primeiro conhecer a própria história do país e perceber como os usos do passado antigo se vinculam a diferentes formas de discursos e práticas cotidianas e, em segundo lugar, por meio da especialização nas Universidades, aprender a buscar por interpretações mais dinâmicas que indiquem a diversidade social, de gênero ou étnica nos quais essas sociedades se construíram. Como vivemos em um país com uma diversidade cultural e social muito pungente, acredito que uma das contribuições desse tipo de estudo que menciono, é a possibilidade de produzir modelos interpretativos mais plurais sobre o mundo antigo.

2. Existe uma “maneira brasileira” de fazer História Antiga, ainda que seja sempre necessário andar pari passu com os outros estudos internacionais?

RSG: Sim, pois nos últimos 25 anos os estudos sobre a História Antiga no Brasil se desenvolveram muito. Há muitos núcleos de pesquisas em diferentes Universidades, públicas e privadas, que abordam uma ampla diversidade de temas sobre o mundo antigo. Em muitos lugares é possível estudar não só História antiga, mas também as línguas antigas, o que amplia a perspectiva de análise dos estudantes, pesquisadores e professores universitários. O intercâmbio com as Universidades estrangeira também tem aumentando a cada dia, seja com a estada de brasileiros no exterior para se especializar, seja com a vinda de professores de importantes instituições européias para participar de eventos, ministrar palestras ou cursos. Outro aspecto relevante é que os estudiosos brasileiros cada vez mais têm publicado trabalhos inéditos e conquistado um importante espaço junto às editoras acadêmicas e comerciais, divulgando suas pesquisas e facilitando o contato com o público leigo. Com isso tudo, acredito que, aos poucos, o campo tem se tornado mais profissional e com estudiosos brasileiros bastante qualificados, construindo, assim, ‘uma maneira brasileira’ de se pensar sobre História Antiga.

PPAF: Estar atualizado com os estudos internacionais é sempre um desafio, em qualquer ciência e também no estudo da Antiguidade. A especificidade brasileira está na nossa experiência com situações sociais e culturais que podem ser muito importantes para entender a Antiguidade (e para criticar o presente), tais como: desigualdade social, exclusão social, patrimonialismo e patriarcalismo, clientelismo, situação periférica, entre outros.

GJS: A produção historiográfica sobre o mundo antigo fora da Europa tem a especificidade de não tratar da história daqueles que a fazem, mas, sim, de maneira idiossincrática, da história dos outros – uma historiografia menos comprometida com valores identitários nacionais. Esse olhar epistemológico mais distanciado parte de países da América e, também, de outros continentes, e se desenvolve no bojo dos estudos pós-coloniais. Isso implica possibilidades de mudanças de problemas e de abordagens que advém, justamente, da distância dos grandes centros especializados e do difícil acesso à documentação. Face às grandes dificuldades de se fazer aqui uma história da Antiguidade que se possa valer do acesso material e humano existente na Europa, a História Antiga no Brasil se reinventa. Aberta a novos influxos teórico-metodológicos e alinhada com a produção historiográfica internacional, a pesquisa brasileira nesse domínio desafia o caráter de exotismo a ela imputado e aponta, hoje, para perspectivas promissoras – tudo isso a evidenciar a importância e a solidez que agrega com os passos trilhados.

3. Quais as vantagens de se fazer pesquisa em História Antiga no Brasil? Quais as desvantagens?

PPAF: As desvantagens ou dificuldades estão na preparação, que envolve conhecimento de línguas antigas e modernas, assim como o conhecimento de uma literatura antiga e moderna muito ampla, acumulada nos últimos milênios. As vantagens começam com o enriquecimento pessoal, pois conhecer a Ilíada, a Bíblia, uma comédia, ou um diálogo de Platão são experiências únicas. Em seguida, em termos sociais, e como resultado desse contato com a Antiguidade, é possível entender melhor os usos da Antiguidade para fins libertadores ou escravizadores (como no racismo, na justificação da escravidão ou da submissão das mulheres, para citar alguns exemplos). Com isto, se pode lutar por um futuro melhor.

RSG: Seguramente os/as alunos/as que se iniciam nesta área encontrarão alguns obstáculos, entre eles, eu acredito, que a questão do acesso às publicações e o domínio das línguas seriam os mais imediatos. Pelo fato de o estudo da História Antiga ser internacional, há muitas publicações em diversos idiomas que o/a estudante precisa ter um contato mínimo. Ou seja, embora a gente perceba um aumento da produção brasileira e um esforço de várias pessoas em traduzir obras importantes para o português, ainda grande parte da produção se encontra em inglês, francês, espanhol e alemão, para citar alguns exemplos. O acesso aos textos clássicos ou a essa bibliografia é outro problema. Importantes universidades brasileiras possuem coleções de textos literários bilíngüe, então é possível ter acesso aos originais, ou coleções de inscrições (gregas ou latinas), mas isso não é uma regra geral. Mesmo que a internet seja uma importante ferramenta na democratização de acesso a importantes bancos de dados internacionais, em geral o/a estudante precisa se deslocar para ter acesso há algumas publicações. No entanto, acredito que, se isso a principio pode parecer um obstáculo, quando superado e mediante o esforço daqueles que se iniciam na área, os caminhos se abrem, pois é possível acessar diferentes estudos e contrapor as teorias e métodos. Isso se diferencia dos trabalhos dos europeus, pois britânicos tendem a ter campos de estudos mais fechados nas publicações em inglês, franceses em francês, para citar alguns exemplos. Então acredito que uma das principais ‘desvantagens’ podem se tornar em uma ferramenta interessante de trabalho e até acabar se configurando em uma ‘vantagem’ pluralizando as interpretações sobre os estudos clássicos.

GJS: Do ponto de vista epistemológico, algumas das vantagens podem ser encontradas nas respostas anteriores, mas outras podem ser consideradas. Ao crescimento e a profissionalização da área no Brasil estão associados à difusão dos centros formadores, a oferta da disciplina por especialistas na maioria das universidades públicas, o grande número de dissertações e teses defendidas na área e de publicações resultantes, a criação de coleções estritamente da área e a tradução de títulos estrangeiros, a circulação crescente de especialistas estrangeiros, o apoio de agências de fomento para uma área em desenvolvimento mediante bolsas e auxílios, inclusive para pesquisas no exterior e, também, a organização dos profissionais da área em torno de sociedades, grupos de trabalho e grupos de pesquisa voltados para a disciplina ou de caráter interdisciplinar, associados à Arqueologia e à Filosofia antigas ou às Letras Clássicas. No campo das desvantagens, tem-se o difícil acesso a documentos e centros especializados. A esse respeito, é importante considerar as inúmeras facilidades no universo virtual que encontram, hoje, aqueles que desejam realizar pesquisa na área, sobretudo em estágios iniciais como na graduação e no mestrado. Parte significativa da produção textual de autores gregos e romanos, por exemplo, pode ser encontrada em diferentes sítios confiáveis, disponíveis para download em edições bilíngües – inglês/latim, inglês/grego, francês/latim/francês/grego, por exemplo. Do mesmo modo, tem-se acesso também a bancos de imagens, grafites e evidências da cultura material com milhares de documentos. Com freqüência, podem encontrar-se, também para download, artigos e livros resultantes de pesquisas desenvolvidas em importantes revistas on-line, bancos e bases de dados.

4. Quando e porque se deu a passagem da visão da História Antiga como um estudo de algo exótico, inócuo e moralizante para um tipo de pesquisa moderno e investigativo como se faz hoje no país?

GJS: O desenvolvimento da História Antiga como disciplina no Brasil é indissociável do desenvolvimento da universidade no país e dos avanços da própria História como área do conhecimento. Compreender sua situação atual, o crescimento vigoroso que ora experimenta e seus desdobramentos para o ensino e a pesquisa implica refletir sobre a constituição dessa área de estudos, o que remonta à criação da Universidade de São Paulo, em 1937. É em torno do Professor Eurípedes Simões de Paula, primeiro catedrático da disciplina, que se desenvolve, ainda de modo incipiente, naquele que seria o principal centro formador de historiadores do mundo antigo, um pólo de estudos da Antiguidade, que formarão os primeiros doutores, entre as décadas de 1950 e 1970. Ligada à formação geral dos historiadores a disciplina encontrou-se freqüentemente determinada pela relevância que lhe é conferida por evidenciar uma dita herança clássica ocidental. É em torno dessa herança que o lugar-comum acadêmico justifica a importância dos estudos clássicos. A década de 1970 apresenta como singularidade o fato de ser marcada pela repressão da ditadura militar e a disciplina será percebida, no meio universitário, como ligada ao controle ideológico – seu currículo será pautado por uma abordagem factual e positivista, estabelecendo-lhe um estigma de área do conhecimento histórico marcada pela alienação intelectual, pelo afastamento de questões do presente e pelo elitismo e conservadorismo. Ainda que as produções subseqüentes e o comprometimento de muitos historiadores da Antiguidade em envidar esforços no combate a esta percepção desenvolvida, ela ainda vigora no senso comum de professores universitários, que não titubeiam em colocar em questão a necessidade/validade dos estudos de História Antiga. Ao contrário dos pressupostos levados a termo por esse raciocínio, diferentes estudiosos têm apontado para um crescimento exponencial das pesquisas universitárias brasileiras na área a partir da década de 1990, associando esse crescimento à democratização do país. Essa multiplicação dos estudos tem sido acompanhada de uma ampliação do universo temático e teórico das pesquisas realizadas, contribuindo para a suplantação do caráter aristocrático da disciplina.

RSG: Precisar essa passagem é bastante difícil. Acredito que esses a aproximação da História Antiga é bastante múltipla e ainda há espaço para esse tipo de abordagem mais moralizante sobre o passado antigo. No entanto, acredito que, com o final da ditadura militar e com a abertura política, as políticas universitárias têm se alterado ao longo das últimas décadas e favorecido a especialização dos pesquisadores, transformando esse campo de estudo, muitas vezes relegado a não-especialistas, em um lugar profissionalizado e consciente de sua importância na formação de cidadãos críticos.

PPAF: A transformação da sociedade brasileira levou a isso. Numa sociedade tão desigual e hieraquizada como a brasileira, a escola foi, por muito tempo, fator de exclusão e reforço das hierarquias. Os antigos cursos clássicos, por exemplo, destinavam-se a uma elite e almejavam a formar desiguais. Com a democratização da sociedade, também o estudo da História mudou e passou a preocupar-se com a pesquisa original, voltada para a inserção das discussões brasileiras no contexto internacional. Isto ocorreu, em particular, a partir da restauração dos civis ao poder, em 1985 e acentuou-se com a expansão do sistema de pós-graduação e dos mecanismos de fomento à pesquisa (e.g. FAPESP) e à qualidade dos cursos (e.g CAPES).

5. A História Antiga pode ser uma boa maneira de se entender o mundo atual? Dê alguns exemplos.

PPAF: A Guerra do Iraque, iniciada pelo presidente Bush, foi o resultado, entre outros fatores, do aconselhamento do historiador da Grécia Antiga, Victor Davis Hanson. Este estudioso, grande conhecedor da Guerra do Peloponeso (século V a.C.), tornou-se conselheiro do Pentágono na gestão do secretário de defesa Donald Rumsfeld, e forjou a teoria da exportação da democracia. Segundo Hanson, Atenas, como os Estados Unidos, lutaram pela democracia, mas os atenienses não cuidaram de exportar a democracia, erro que os EUA, portanto, não deviam correr. Deviam lutar contra a tirania e impor a democracia, daí a invasão do Iraque. Os soldados que lutam no Iraque, desconhecedores da História Antiga, morrem, sem saber desse uso imperialista da História Antiga. Assim já havia sido em outras ocasiões e será de novo, sem um conhecimento crítico da Antiguidade.

GJS: Sim e não. A resposta pode ser afirmativa se considerarmos que muito de nossas práticas e instituições remontam à antiguidade, e que a História antiga, canonicamente a do mundo clássico, figura, em diversos países, na base dos conhecimentos necessários para o entendimento da origem das coisas, das instituições, dos povos. Dessa perspectiva, valores, costumes, práticas e experiências que orbitam universos originais são lidos, interpretados, imaginados e reivindicados no estabelecimento de compreensões de questões contemporâneas. Resultado de um olhar do presente para o passado, a escrita de história antiga diz tanto do passado que tem como objeto quanto do presente em que é produzida. Na busca de referenciais clássicos durante o Renascimento, no desenvolvimento de uma história comparativa entre os povos da Antiguidade e os ameríndios no XVI e no XVII, na leitura da Antiguidade feita pelos revolucionários de 1789, nos ideais de identidade, continuidade e comunidade dos discursos nacionais do XIX e na legitimação de regimes autoritários como o Nazismo e o Fascismo, por exemplo, pode-se perceber uma idéia de História Antiga ligada de forma direta a questões contemporâneas. A resposta deve ser negativa se quisermos ver em nossas práticas e instituições, hoje, o produto histórico de uma continuidade que vem de gregos e romanos.

RSG: Dentro do campo dos estudos históricos como um todo há uma grande mudança na perspectiva da relação entre passado e presente. Muitos historiadores têm criticado abordagens estáticas sobre o passado e buscado inserir a produção dentro do campo presente. Seguramente essas reflexões perpassam o estudo da História Antiga e cada vez mais há estudiosos criticando as abordagens tradicionais por se focarem muito nas camadas elitizadas das sociedades antigas, que compunham uma minoria das sociedades. Muitos estudiosos, brasileiros e estrangeiros, têm chamado a atenção aos usos políticos que foram feitos do mundo antigo, muito se recorreu a ele para legitimar impérios, exploração e desigualdade social. Como o foco dos estudos tem se alterado e muitos se preocupam em pesquisar resistências às conquistas, os conflitos, as diferenças de papeis de gênero na Antiguidade, a diversidade étnica e cultural, acredito que ao olharmos o passado dos egípcios, celtas, gregos ou romanos, só para citar alguns exemplos, de uma maneira mais plural e menos homogênea, percebendo os conflitos e contradições, conseguimos repensar nosso próprio presente. Ou seja, pensando a diversidade e os usos políticos feitos ao longo dos séculos XIX e XX, podemos repensar os conflitos entre Oriente/Ocidente; percebendo outras formas de relação com o divino e a natureza, podemos nos posicionar, de forma crítica, diante as diferentes formas de intolerâncias presentes e construir outras formas de ação cotidianas. Isso não quer dizer que devamos retomar as formas de vida passadas ou reproduzi-las, mas dialogar com elas e nos posicionar de maneira menos passiva no mundo de hoje.

6. A História Antiga já funcionou, no passado, como uma maneira de civilizar as elites. Hoje ela pode, como falou Gramsci, ser uma maneira de ensinar cidadania? De que maneira?

GJS: Entendida como conservadora, hierárquica e patriarcal, a disciplina esteve por longa data associada à reiteração de referenciais excludentes de uma dada cultura ocidental. Nesse sentido, não raro a Antigüidade tem sido percebida a serviço de uma lógica justificadora e legitimadora, onde se pôde ver, ao longo do século XX, suas ligações com as questões identitárias nacionais, com os regimes autoritários, com o racismo, com o machismo e com práticas políticas e sociais de toda sorte. É claro que esta constatação não define de maneira intrínseca a disciplina, mas evidencia a preocupação atual dos historiadores de se aperceberem do papel que exerceram no estabelecimento de diferentes visões do mundo antigo. De maneira antitética, a manutenção das opressões e das desigualdades fundada na Antiguidade tem sido contestada por uma visão menos normativa, com implicações diretas para a uma nova idéia de cidadania. As concepções de raça, língua e cultura particulares e da relação entre raça e território, por exemplo, que estiveram na base de muitos modelos interpretativos do mundo antigo e que justificavam, no mundo contemporâneo, as exclusões sociais, a escravidão e a colonização cedem espaço a análises mais elaboradas. A consciência do vínculo guardado entre esse modelo analítico e interesses de diferentes grupos no presente, desde o século XVIII, é a grande motivação. Evidenciar, aos alunos e interessados, em geral, a percepção que os próprios antigos tinham de sua história – eivada de cruzamentos, trocas culturais e circulações, como no caso da Grécia, por exemplo – pode consistir em um modo de problematizar a questão; um modo de nos conhecermos de maneira consciente, como propugnava Gramsci.

RSG: Sim, se a gente considera que o historiador sempre olha o passado a partir do presente, suas ações não são neutras. Assim, o estudo da História Antiga pode legitimar governos autoritários como pode ser uma maneira eficaz de repensar cidadania. Acredito que pensar a diversidade dos povos antigos, seus conflitos e contradições, é um caminho profícuo para aprender a se posicionar diante dos conflitos presentes e constituir formas distintas de ação política. Você citou Gramsci, mas Foucault ou Hannah Arendt muito escreveram sobre a capacidade libertadora das releituras políticas sobre a Antiguidade Clássica. Cada um a seu modo se ativeram a gregos ou romanos para defenderem formas distintas e mais democráticas de agir no mundo presente.

PPAF: Pode servir para mostrar dois aspectos importantes: a diversidade e os usos do passado. No primeiro caso, a diversidade. Saber que as pessoas, na antiguidade, não distinguiam raças humanas, que os homens mantinham relações sexuais com mulheres e com homens (e que, portanto, não havia a categoria social do “homossexual”), são experiências que demonstram a diferença. Com isto, conceitos e práticas modernas, como o racismo ou a discriminação sexual são históricos e culturais, não são naturais. Em seguida, os usos do passado. Utilizaram-se dos antigos para justificar atitudes modernas. Assim, Aristóteles foi usado para justificar tanto a escravidão como a exclusão social das mulheres em tempos modernos. Para lutar contra isso, é importante colocar a Antiguidade em seu contexto.

7. Como se muda a visão da História Antiga como algo exótico e inútil para um estudo que pode nos ajudar a entender melhor de onde viemos e para onde podemos ir?

PPAF: Com bons livros, documentários, estudos e pesquisas. Isto já ocorre e o efeito positivo tende a difundir-se, com a democratização do país. Os livros didáticos já apresentam, ainda que um tanto timidamente, os dois aspectos mencionados: a diversidade e os usos modernos do passado antigo. Com isto, se formam cidadãos críticos.

RSG: Muito de meu trabalho se inspira em considerações feitas por Michel Foucault, em especial as relações que estabelece entre presente e passado antigo. Apesar das críticas e comentários que se fizeram a seu pensamento nos últimos 40 anos, sempre que retomo algumas obras de Foucault me impressiona sua perspicácia em não dissolver a relação entre seu presente e o passado greco-romano. A impressão que sempre fica é que Foucault nunca duvidou que os gregos e romanos poderiam inspirar nossas ações no presente. No entanto, sua singularidade reside no fato que, ao contrário da perspectiva tradicional que comentei, Foucault buscou nos gregos e romanos inspirações para criticar uma tradição autoritária de pensamento acadêmico e ação política. Não acho que ele tenha tratado os antigos como um espelho de sua realidade, mas como um outro que, analisado em sua especificidade, poderia desafiar as convicções modernas e abrir espaço para novas formas de sociabilidades. É inspirada nesta perspectiva que gosto de discutir a cultura romana. Não é uma pretensão de uma imitação deste universo, mas ao contrário, consciente de que nosso presente influencia a visão que construímos do passado, gosto de pensar que não devemos copiar os romanos, mas dialogar com eles e nos sentirmos desafiados a repensarmos nossas formas de sociabilidade no presente e recriá-las sempre.

GJS: A base dessa mudança de percepção está na consciência de que, se por um lado, não há uma continuidade entre os antigos e nós, por outro, diferentes aspectos oriundos de suas culturas nos definem. Textos como a Ilíada e a Odisséia, de Homero, ou a Teogonia e Os trabalhos e os dias, de Hesíodo, não se tornaram clássicos de forma ocasional, expõem aspectos determinantes da condição humana e cuja ressignificação é indicativo de sua perenidade. Nas diversas épocas da história, a Antigüidade reapareceu como presença posterior determinante e reformulada pelas múltiplas visões e interesses do presente. Esses condicionantes, muitas vezes percebidos por vieses de classe, raça e gênero, por exemplo, marcaram os estudos historiográficos a respeito do mundo antigo, estabelecendo, no passado e no presente, a construção de uma homogeneidade social alheia de todas as diferenças e conflitos. Propiciar essa intelecção pode ajudar, seguramente, em um conhecimento mais elaborado de nós mesmos.

8. Como é a visão geral que se tem do estudo da História Antiga no Mundo Acadêmico brasileiro?

PPAF: Ainda não é tão conhecida quanto poderia ser, tendo em vista sua inserção internacional. No campo da História, isso é natural, pois quase todos os estudiosos se especializam em História do Brasil. Contudo, nos últimos anos, muitos cursos superiores de História passaram a ter especialistas em Antiga, algo que antes era raro. Com isto, os historiadores passaram a conhecer melhor o tema e ter contato com uma literatura que mostra a relevância do tema.

GJS: Nas grades curriculares, à margem de outras disciplinas, a História Antiga ocupa um lugar paradoxal. Por um lado, pouco privilegiada em carga horária, número de docentes e variação temática (as antiguidades orientais e, mesmo, as americanas, praticamente, inexistem nos curricula, com predominante viés eurocêntrico e majoritariamente voltado para a Antiguidade Clássica), o que se apresenta como uma incongruência, sobretudo ao se considerar o arcabouço geocronológico que envolve; por outro, o papel atribuído à disciplina na formação geral dos historiadores encontra-se determinado pela relevância que lhe é conferida por evidenciar uma dita herança clássica ocidental. É em torno dessa herança – hoje bem mais problematizada – que o lugar-comum acadêmico justifica a importância dos estudos clássicos. De uma narrativa positiva e ensimesmada, mais preocupada em explicar do que compreender, a uma história problema, a História do mundo antigo conhece, hoje, novos lugares no mundo acadêmico. A ampliação dos objetos de pesquisa e dos paradigmas interpretativos está na base dessa mudança de visão, retirando da disciplina seu caráter aristocrático e hierárquico.

RSG: Acredito que as Ciências Humanas como um todo tem ganhado espaço na academia brasileira. No caso da História Antiga, como os estudos são, em geral, interdisciplinares e dialogam com diferentes campos do saber (línguas, filosofia, arqueologia, por exemplo), acredito que a profissionalização tem ajudado a área a ter mais reconhecimento entre seus pares. Embora ainda seja um campo minotário e em formação se comprarmos com outros, grupos como GT de História Antiga da Anpuh, a SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos) ou os diversos núcleos de estudos de Universidades públicas e privadas, tem sido importantes para dar mais visibilidade aos trabalhos que tem se realizado nas diferentes partes do país.

9. Que tipo de estudante procura vocês para trabalhar?

GJS: A história da Antiguidade exerce um grande fascínio no imaginário dos estudantes, em geral. Alguns deles se frustram ao tomarem contato com a disciplina e se aperceberem da inexistência de uma Antiguidade per se, à qual se reportariam mediante acesso a alguns documentos e logo se aperceberiam dos modos de ser e viver dos antigos – negligenciado, sempre, o fato de que é o presente que olha para o passado e estabelece compreensões a seu respeito. É esse mesmo aspecto, permeado de novas e surpreendentes descobertas, o grande motivador do interesse no desenvolvimento de pesquisas por muitos outros estudantes.

RSG:A grande maioria dos/as estudantes que me procuram são jovens que tiveram acesso ao mundo antigo via escola ou cultura de massa (cinema, romance histórico, games), mas que possuem estranhamentos ou dúvidas com essas formas de abordagens. Em geral, são bastante questionadores, gostam de ler e estudar língua, enfim, pessoas com muitas inquietações e vontade de aprender sobre culturas diferentes das suas.

PPAF: A Antiguidade fascina por diversos motivos e há, portanto, uma diversidade de interesses e, assim, de alunos. No geral, contudo, os alunos que se voltam para a Antiguidade são ousados, pois escolhem um campo que exige, se levado a sério, muita dedicação e estudo (idiomas, obras clássicas, literatura internacional atualizada).

10. Como são as bolsas e auxílios de pesquisa atuais para se trabalhar com História Antiga?

RSG: As Universidades públicas costumam ter diferentes formas de auxílios de pesquisa, dependendo da etapa que a pessoa se encontra. Na graduação há bolsas de iniciação científica, bolsa trabalho ou permanência. Cada uma possui perfis diferentes e dependem das instituições, mas ajudam aos alunos se dedicarem ao estudo. Na pós-graduação há bolsas de mestrado e doutorado. No caso do doutorado, há diferentes financiamentos federais ou estaduais que permitem o estágio no exterior, etapa muito importante para quem estuda história Antiga.

PPAF: Depende muito da instituição. No caso da Unicamp, as possibilidades são excepcionais, pois há programas de bolsas do CNPq, FAPESP, CAPES, além de programas específicos como as bolsas trabalho (SAE/Unicamp) e parcerias com universidades estrangeiras e mesmo empresas de Arqueologia. Mas mesmo em lugares mais afastados do país, as agências de fomento têm sido importantes, como no caso, por exemplo, da UFPel, UNIFAL, UEL, para citar alguns centros emergentes.

GJS: Toda essa ampliação dos estudos e da área, resultante de um efeito de formação multiplicador, só pode ser e é possível em virtude da luta pelo reconhecimento e legitimidade da disciplina por parte de diferentes profissionais, mas, também, pelo incentivo e apoio financeiro das agências de fomento dos estados e da União. Da iniciação científica ao pós-doutoramento as pesquisas se beneficiaram e se beneficiam de bolsas para projetos individuais e coletivos, cuja contribuição para os avanços da História Antiga no Brasil são indeléveis. Em diferentes níveis de sua trajetória escolar, com apoio de órgãos brasileiros estaduais e federais e órgãos estrangeiros, alunos brasileiros têm experimentado estágios de formação integral e parcial em centros de excelência no exterior, o que tem possibilitado a complementação de seus estudos. No caso da História da Antigüidade, área de estudos crescente, mas de constituição e consolidação recentes no Brasil, essa inserção internacional viabiliza o acesso a fundos bibliográficos e documentais especializados e constitui-se numa das principais oportunidades de qualificação para estudantes e professores de universidades brasileiras – algo que só pode ser realizado mediante financiamentos.

11. Como fazer trabalho de campo tão longe dos sítios arqueológicos? Há o que trabalhar no Brasil nesses termos nos museus?

GJS: Para aqueles que optam por abordar as culturas antigas pelo viés da cultura material, diferentes catalogações e sistematizações de resultados de escavações encontram-se disponíveis em forma de publicações impressas e virtuais, o que pode sempre ser cotejado pelos historiadores com a tradição textual que, no caso da Antiguidade Clássica, encontra-se publicada e acessível no Brasil, estando, também, em grande parte, disponível em sítios confiáveis. Há sempre a opção, factível, sobretudo, a partir do doutorado, de qualificação parcial ou integral no exterior. Pesquisadores de diferentes universidades brasileiras encontram-se envolvidos em projetos de escavação de sítios arqueológicos antigos e têm propiciado a seus al unos o acesso a essas experiências, por meio de financiamentos nacionais e estrangeiros. A depender da temática de pesquisa, temas podem ser desenvolvidos no Brasil a partir de coleções de nossos museus, alguns deles portadores de acervos provenientes de escavações, como é o caso do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, do Museu nacional do Rio de Janeiro, para citar dois exemplos significativos.

PPAF: Há possibilidades de pesquisas com acervo aqui no Brasil e de estágio no estrangeiro. Na Unicamp, diversos alunos, já na graduação, fazem trabalhos arqueológicos de campo na Europa, assim como, mais ainda, no mestrado e doutoramento. O estudo de acervos de museus brasileiros também tem sido importante, como no caso do acervo numismático romano do Museu Histórico Nacional, cujo primeiro catálogo brasileiro de moedas antigas foi publicado pela Unicamp, em livro de Cláudio Umpierre Carlan e Pedro Paulo Funari.

RSG: Trabalhar com a Arqueologia sobre o mundo Antigo no Brasil é, também, um desafio. Em um primeiro momento, poderíamos pensar que a maior dificuldade é o acesso à cultura material e aos sítios arqueológicos que, por definição, se encontram na Europa, África do norte e Oriente Próximo. Mas uma análise mais cuidadosa indica uma série de outros problemas mais complexos, pois é importante destacar que alguns museus brasileiros, como o MAE/USP ou o próprio Museu Nacional do Rio de Janeiro, possuem coleções de peças do mundo egípcio ou Greco-romano, ainda pouco estudadas por pesquisadores brasileiros. Neste contexto, acredito ser importante destacar que, para além das dificuldades de acesso a esta cultura material, que poderiam ser suplantadas por meio de estágios no exterior com bolsas de estudos, trabalhos integrados com grupos de pesquisas europeus ou mesmo pelo estudo dos artefatos das coleções de Museus brasileiros, há outro aspecto que precisa ser destacado: o tenso diálogo entre História e Arqueologia. Então, além do acesso à cultura material, também é preciso rever a relação entre História e Arqueologia do ponto de vista teórico-metodológico, pois isso implica em discutir a percepção de História e Arqueologia na qual o estudioso do mundo antigo é formado e, também, na sua postura diante da possibilidade ou não de concretizar este diálogo.

12. Como se lidar com a eterna dualidade entre História e Arqueologia, uma relação algo complexa para a História Antiga?

GJS: A Arqueologia é uma ciência autônoma, com teorias, objetos e métodos próprios, não estando a serviço de outras ciências, como a História. Os historiadores, contudo, se fazem valer de referenciais advindos das descobertas arqueológicas para ampliarem seu escopo documental e, conseqüentemente, suas possibilidades de pesquisa – confrontando esses diferentes tipos de fontes. Tanto as evidências da cultura material quanto a tradição textual apresentam suas fragilidades epistemológicas; cotejadas, alçam a compreensão dos objetos de pesquisa a um patamar mais elevado. A História Antiga disso também se beneficia.

RSG:Essa é uma questão bastante complexa. Alguns estudiosos britânicos tem se dedicado a pensar a tensa relação entre História e Arqueologia e chamam a atenção para um aspecto particular: arqueólogos e historiadores investigam o mesmo passado, mas empregam metodologias distintas. Esta particularidade constituiria a base das controvérsias, pois muitos arqueólogos criticam historiadores por constituírem narrativas a-teóricas, enquanto os historiadores, por sua vez reclamam do excesso de especialização e termos técnicos que os arqueólogos empregam em suas publicações. Estas dificuldades se dariam devido há treinamentos distintos que as disciplinas exigem acirrando, em muitos casos, o debate e provocando mais distanciamentos que aproximações. Neste sentido, muitos estudiosos têm defendido, hoje, a necessidade de construção de pontes entre as disciplinas, para uma maior fluidez do conhecimento.

Embora estas considerações estejam vinculadas ao campo de conhecimento europeu, conhecer estas perspectivas interpretativas é fundamental para refletirmos sobre como os estudos clássicos têm se desenvolvido no Brasil. Mesmo que a grande maioria dos estudiosos brasileiros acredite que os textos são as fontes mais relevantes para o estudo do mundo antigo, a cultura material tem sido mais empregada em trabalhos publicados nas últimas duas décadas. Assim, em sintonia com as transformações teórico-metodológicas em ambas disciplinas, a relação entre texto e cultura material tem adquirido novos contornos tanto na Europa como nas produções brasileiras. Atualmente tenho trabalho em uma perspectiva que acredita que reconhecer as tensões entre as disciplinas e procurar trabalhar com elas é uma perspectiva desafiadora por abrir novas possibilidades de pensar o mundo antigo em sua diversidade.

PPAF: Há 25 anos, Geza Alföldy, o grande estudioso alemão de Heidelberg, dizia que “não se pode pensar a História Antiga sem a Arqueologia”. No Brasil, tal perspectiva difunde-se cada vez mais, pois as evidências materiais crescem a cada dia e permitem que o pesquisador brasileiro produza reflexões originais. Um exemplo disso é o trabalho da Dra. Renata Senna Garraffoni, da UFPR, formada na Unicamp, cujos estudos sobre os jogos de gladiadores têm sido publicados e apreciados no estrangeiro, tendo ela ganhado prestigiosa bolsa de pesquisa da British Academy.

13. Como os livros didáticos costumam tratar a História antiga? Quais as conseqüências disso? De que maneira se pode mudar esse estado de coisas?

GJS: De modo geral, os livros didáticos tratam os conteúdos de História Antiga de maneira tópica, simplificada e generalista, ligada à história do “homem civilizado moderno”. Muitas podem ser as vias de abordagem desse conteúdo, a da limitação dos conceitos e suas implicações para o conhecimento é uma delas. Em muitos casos, mais do que a ausência de cuidados a seu respeito o que se observa é que os próprios conceitos utilizados são representativos de concepções teóricas conservadoras e de desconhecimento historiográfico. Antes mesmo dos conteúdos clássicos, a utilização não explicada do conceito de Pré-História e o viés eurocêntrico que orienta o tratamento que lhe é dado já se apresenta como um problema. Na seara dos conceitos, na clássica linha do tempo, ora implícita ora explícita nos livros didáticos, vê-se para os mundos grego e romano a utilização de termos como helenização e romanização, ligados à idéia de imposição de valores e modos de vida de gregos e romanos em relação aos povos por eles conquistados. A esses termos liga-se a idéia de imperialismo, de subjugação total do outro, não considerando que os povos vencidos, mesmo que conquistados militar e politicamente, não foram e nem poderiam ter sido aculturados, porque uma cultura jamais se impõe, de forma absoluta, sobre outra, eliminando-a. Ainda em relação à Antigüidade Clássica, expressões como “o povo romano”, “o homem romano”, “a mulher romana”, ou mesmo “os romanos”, e “os gregos”, o “homem grego”, “a mulher grega”, permeiam os livros didáticos, desconsiderando toda diversidade e complexidade que não cabem nessas generalizações. Nessa mesma perspectiva de abordagens generalizantes vê-se a experiência de cidades-estados gregas como Atenas e Esparta serem aplicadas a toda Grécia, um equívoco comum. Em relação a Roma, as generalizações são da mesma natureza. A idéia de “Roma antiga” expressa nos livros didáticos carece de uma ampliação conceitual. Roma designa uma cidade e um Império. Quando se diz “sociedade romana” a que se quer referir? A complexa desestruturação do Império Romano, outro exemplo, é com freqüência tratada de forma não menos generalista. Lê-se em muitos livros didáticos sobre o “fim do mundo romano” ou a “queda do Império romano” atribuída às “invasões bárbaras”. Do mesmo, o próprio conceito de decadência ainda é corrente em muitos desses livros. Por aceitação ou desconhecimento dos autores de muitos livros didáticos, não se observa que essa interpretação tradicional do “fim” do Império romano, muito comum no final do século XIX e início do XX, via como causas desse acontecimento questões ligadas a fatores como a “decadência moral”, a “mistura entre raças”, por exemplo, e não se considera que um grande conjunto de transformações se desenvolvia em Roma, desde o século III, e que essas transformações, na política, nas guerras, nas artes, nas leis, não constituíram uma ruptura repentina que atingiu todos os setores da vida do Império a um só tempo e que, por isto, não é pertinente falar em “fim”, “queda” ou “declínio” do mundo antigo. As conseqüências dessas abordagens se revertem em uma compreensão pouco problematizada dos conteúdos da área. A existência de livros didáticos veiculadores de conceitos normativos e, em muitos sentidos, ultrapassados, não deve invalidar, contudo, a existência dos mesmos. Há aqui uma sucessão de instâncias interligadas e decorrentes. O aluno com uma má formação universitária em História Antiga é o mesmo que vai reproduzir esses conhecimentos nas salas de aula do ensino fundamental e médio, e é também dos quadros que se forma que sairão aqueles que se tornarão autores dos livros didáticos, em geral. Uma mudança efetiva nesse quadro implica numa necessária transformação, via melhor qualidade do ensino dos conteúdos da área (maior número de horas-aula, especialização docente, amplitude temática), na própria estrutura do ensino superior de História. Implica também, além da formação docente universitária a disponibilização de oportunidades de qualificação para professores já formados. Profissionais formados com melhores conteúdos têm, inclusive, maiores condições de assumirem um posicionamento crítico diante de materiais didáticos de qualidade ruim, encontrando-se aptos a instrumentalizarem seus alunos a fazerem o mesmo. Os problemas que envolvem os conhecimentos de História Antiga ligados aos livros didáticos, despretensiosamente apresentados aqui, devem ser entendidos não simplesmente como constatações, mas, sim, como o reconhecimento de dificuldades contra os quais muitos profissionais tem se batido. Mudanças como o aumento de centros formadores, aumento do número de especialistas a cargo das disciplinas de História Antiga, aumento do número de trabalhos especializados e o acesso a eles e o desenvolvimento de reflexões teóricas na área podem ser entendidos como de importantes efeitos nos conhecimentos sobre esse campo do saber – das universidades às escolas.

PPAF: Nos últimos anos, os livros didáticos têm utilizado, de maneira crescente, as reflexões mais atuais e críticas sobre a Antiguidade, com a inclusão da produção brasileira, como no caso do livro de José Alves, também professor da Unicamp. Visões conservadores ainda persistem, mas há uma crescente renovação também nos livros didáticos.

RSG: Os livros didáticos, em geral, apresentam os principais eventos políticos do mundo antigo, em uma perspectiva linear e evolutiva, ou seja, parte de perspectivas tradicionais de formulação do pensamento histórico. Isso acaba transformando o mundo antigo em algo distante e pouco adequado ao cotidiano dos alunos das escolas brasileiras. Os trabalhos de Raquel Funari têm indicado que as crianças, no entanto, já chegam a escola com muitas outras informações advindas da cultura de massa e defende a importância de trabalhar esse universo junto com o conteúdo formal. Acho que essa perspectiva é bastante instigante, pois parte do universo do/a aluno/a e, aos poucos, produz empatia ao tema, valorizando suas visões de mundo e permitindo que eles produzam conhecimento, adotando uma postura menos passiva diante do livro. Acredito que, ao invés de abandonar o livro didático, o/a professor/a precisa estar ciente de seus limites e criar possibilidades de lidar com o conteúdo de maneira mais autônoma. Nesse sentido, experiências concretas como as relatadas e analisadas por Raquel Funari são importantes para tornar a história antiga mais viva e próxima das crianças e adolescentes e buscar discutir temas relevantes para uma formação crítica, fortalecendo a cidadania no tempo presente.


[1] Professor Titular do Departamento de História, Pesquisador do Nepam e Coordenador do Centro de Estudos Avançados da Unicamp, http://www.gr.unicamp.br/ceav.

[2] Professora do Departamento de História da UFPR, colaborada da Unicamp.

[3] Professor do Departamento de História da Unifesp, diretor do Centro de Pensamento Antigo da Unicamp.

Extraído de: http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=reportagens&id=31

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