"Não existe escola ideal" – José Pacheco

Fonte:
http://www.revistaencontro.com.br/edicao/106/nao-existe-escola-ideal#
Entrevista
| Daniele Hostalácio |

Criador da famosa Escola de Ponte, em Portugal, onde não há provas nem séries, o escritor e educador José Pacheco, que agora vive em BH, fala sobre o futuro da educação
"Não existe escola ideal" – José Pacheco

Ouvimos falar da crise das instituições e, em particular, da ­cri­se­ ­da­ ­insti­tuição família. Muitas crianças chegam às escolas já destruídas por pais inseguros, permissivos ou prepotentes. Num tempo de narcisismo exacerbado, muitos pais se esquecem de educar os filhos e consideram as escolas como depósitos de alunos. Mas é com pais e professores que a criança encontra os limites do controle que lhe permite progredir em autonomia, na liberdade de experiência e de expressão, dentro de um sistema de relações e de trocas sociais". A frase é do educador português José Pacheco, conhecido, sobretudo, por ser ter sido o coordenador da Escola da Ponte, localizada em Porto, Portugal, e que ele dirigiu por mais de 30 anos. A Escola da Ponte ousou romper velhas estruturas, tornando-se inspiração para incontáveis instituições educacionais, em todo o mundo, e fazendo de José Pacheco uma referência em educação, entre vários estudiosos. Todos os anos, a escola recebe mais de 10 mil visitas, pessoas que querem conhecer de perto o modelo inovador criado ali – uma escola onde não há séries, nem provas, ou salas de aula, mas que atingiu excelência em matemática e português em Portugal, contra todas as expectativas, pois abrigava muitas crianças que outras escolas recusavam, por terem necessidades especiais, histórico de agressividade ou o que era considerado "dificuldades de aprendizagem". Autor, entre outros, dos livros Sozinhos na escola e Quando eu for grande, quero ir à primavera, José Pacheco se mudou para Belo Horizonte, em 2009, para participar de um projeto, com o qual pretende estar envolvido pelos próximos dez anos. Abaixo, nesta entrevista à Encontro, o educador revela um pouco das suas ideias, centradas na responsabilidade de todos na educação das crianças.
­ENCONTRO – Na sua avaliação, por que o modelo de educação com aulas expositivas, centrado na autoridade do professor e em provas, tem se mostrado tão resistente a mudanças?
José Pacheco – As escolas converteram-se ao mundo digital, mas mantêm e reforçam velhas práticas de ensino. As escolas reproduzem um modelo obsoleto e produzem exclusão, abandono, infelicidade… Cada ser humano é único e irrepetível, possuidor de um repertório linguístico pessoal, um ser dotado de ritmo próprio, de uma cultura específica, de um determinado estilo de inteligência. O maior equívoco do modelo dito tradicional é idealizar um aluno "médio" e para esse inexistente personagem do drama educativo conceber projetos, planejamentos e inutilidades afins, ensinar a todos como se de um só se tratasse. Por outro lado, nos improvisos de "novas" práticas, o insucesso mantém-se e prospera. São várias as causas desse absurdo. Algumas poderão ser encontradas na formação de professores e no tipo de cultura que ainda predomina nas nossas escolas. Apesar de as instituições de formação de professores serem servidas por excelentes profissionais, a formação é nitidamente desajustada dos objetivos de transformação e melhoria das práticas. Muitos educadores ainda não se aperceberam de que a reconfiguração da escola não pode alimentar-se de teorias fósseis. É urgente libertar a escola de raciocínios dedutivos. Novas concepções não cabem em quadros conceptuais pré-existentes.
"O projeto de uma escola é um ato coletivo e só tem sentido no quadro de um projeto local, consubstanciado numa lógica comunitária, e pressupõe profunda transformação cultural"

ENCONTRO – Qual é o melho modelo?
José Pacheco – A teoria disponível é importante, mas é necessária uma atitude indutiva, na evolução de uma experiência concreta para a emergência de novos conceitos. No modelo de educação predominante, é tudo sem sentido. Se não existe na literatura das ciências da educação nenhum fundamento teórico, por exemplo, para que haja séries, por que razão elas existem? Como conceber que possa acontecer ensino e aprendizagem quando se impõe a todos os sujeitos padrões únicos de tempo e um único ritmo? Acontece ensino e aprendizagem quando se está consciente da diversidade e da imprevisibilidade do ato humano. Urge, também, que o professor reelabore a sua cultura pessoal e profissional. Eu soube o que é estar sozinho numa sala de aula. Quando rompi muros, compreendi que não é sina de um professor o estar isolado com seus alunos, seu método, suas certezas, angústias… Quando passei a trabalhar cooperativamente, compre­endi que era possível corresponder a todos e a cada um dos alunos. Mas reconheço que são ainda muitos os obstáculos e medos que os professores têm de aprender a ultrapassar.

ENCONTRO – Que prejuízos essa estagnação tem produzido na formação de crianças e jovens, em todo o mundo?
José Pacheco – Se as causas são múltiplas, são também múltiplas e trágicas as consequências. Bastará pensar na multidão de analfabetos funcionais que essa escola gerou e nas chagas sociais que nos afetam. Atravessamos um tempo de profunda crise, a que a escola não é alheia. Muitos professores atuam, ainda que disso não tenham consciência, como reprodutores dessa crise, quando agem somente no intuito do "adestramento cognitivo". Por exemplo, nas escolas que ainda vamos tendo, as artes são consideradas áreas menos "nobres" no currículo real, quando o desenvolvimento da sensibilidade, do sentido estético, da formação integral deveria ser uma preocupação constante. A crise no sistema educacional é consequência e causa da crise de valores. A escola reflete e vive a desumanização operada por um sistema iníquo. É parte do problema e poderá ser princípio de solução. Não quero ser injusto, mas direi que a maior parte da produção dita científica, neste campo, não logra penetrar e fertilizar as práticas. O hiato entre teoricistas e praticistas mantém-se, apesar de bons esforços de mudança, que venho testemunhando. Por isso, defendo a aproximação da universidade e de centros de pesquisa às muitas e boas experiências de que venho tomando conhecimento, no Brasil.

ENCONTRO – O senhor tem afirmado que um dos grandes problemas, produzidos por esse modelo, é a solidão, de que são vítimas tanto os alunos quanto os professores. Que solidão é essa?
José Pacheco – Não faz sentido um tipo de organização do trabalho escolar que mantém e reforça a solidão dos atores do drama escolar. Urge passar de uma cultura solitária para uma cultura solidária; urge deixar de haver professor sozinho na sua sala de aula; urge que cada professor assuma responsabilidade individual pelos atos do seu coletivo. Se quisermos educar os nossos alunos na cidadania e na autonomia, compreenderemos que ninguém dá o que não possui, ninguém ensina aquilo que não é. Os vínculos afetivos gerados pelo exercício cooperativo da profissão são persistentes e fomentam comportamentos de autonomia. Essa autonomia se organiza sobre a dependência e se reforça nas suas contradições, no autorreconhecimento de inevitáveis dependências relativamente à multiplicidade e complexidade do mundo. A autonomia não é apenas contar consigo próprio, mas contar com o apoio de outros na construção de autonomia-com-os-outros.

ENCONTRO – As crianças sofrem grande pressão para aprenderem dentro de um ritmo preestabelecido para a idade delas, e desde cedo já vivenciam a ansiedade de serem avaliadas através de provas e notas. As crianças se beneficiam, de alguma forma, com isso?
José Pacheco – Ninguém se beneficia dessa suposta "avaliação" e a pressão da competitividade negativa engendra perversidade – os países que ocupam os primeiros lugares nas classificações de avaliação (por exemplo, o Pisa) são os mesmos que possuem os mais elevados índices de suicídio juvenil. Acresce que a avaliação praticada na maioria das escolas é inútil, ou não existe mesmo uma avaliação digna desse nome nas escolas. Confunde-se prova com avaliação. Por exemplo, os fervorosos defensores dos inúteis e nefastos vestibulares saberão em que consiste assegurar a validade ou a fidelidade de um item? Saberão aquilatar da subjetividade da correção de uma prova? Terão conhecimento das grosseiras fraudes que elas engendram? O Enem possui algumas virtudes e deverá continuar a ser utilizado como instrumento de aferição, até que se conclua da sua eventual utilidade. Até hoje apenas serviu de deleite para uma imprensa sensacionalista. E não logrou suscitar melhorias no sistema, porque a preocupação com o termômetro não faz baixar a temperatura do doente… Uma prova, um exame é um mero instrumento de discriminação, de seleção, até mesmo de exclusão escolar e social. Há modos mais rigorosos de avaliar.

ENCONTRO – Mas as crianças precisam ser avaliadas, de alguma maneira?
José Pacheco – Poderão sê-lo a todo o momento. Enquanto criança no ofício de aluno, deverá sê-lo, contínua e sistematicamente. Porém, necessário será distinguir avaliação de classificação. O aluno deve dispor de ferramentas para medir o seu conhecimento. Mas avaliação não é o mesmo que classificação, e a classificação não mede o conhecimento. Uma nota estabelece comparação entre desempenhos de diferentes alunos, hierarquiza, não avalia. Nos moldes em que a classificação é tratada nas escolas, não passa de um ato pouco rigoroso e inútil. Aquilo que a classificação produz são efeitos perversos e a classificação é irrelevante em termos educacionais, é um mero exercício de poder simbólico, tempo perdido. ENCONTRO – Na sua opinião, por que o ensino é, hoje em dia, quase todo baseado em treinamento cognitivo?
José Pacheco – Talvez seja herança da modernidade e de um cartesianismo levado às últimas consequências. A escola tem sobrevalorizado a dimensão do cognitivo. Porém, esta dimensão não pode dissociar-se de outras – emocional, afetiva, sócio-moral, estética – para que cada aprendiz possa assumir uma cidadania plena, refazer-se como pessoa, ver e aceitar os outros como pessoas. A escola inunda o cérebro dos alunos de tralha cognitiva. Prevenindo alguns equívocos provocados por certas modas pedagógicas, fará sentido questionar um currículo oficial, uma grade de conteúdos igual para todas as escolas, inundada de conteúdos como "plantas epífitas, sujeito nulo subentendido, ou ato ilocutório diretivo". Por que se continua a encher a cabeça dos alunos com inutilidades? Para promover a decoreba plasmada em provas que não provam nada e, depois, esquecer? Será oportuno recordar que a astrologia já fez parte do currículo das faculdades de medicina. E que, se as abordagens da retórica e do latim foram indiscutíveis, hoje são consideradas obsoletas. Todo o mundo é composto de mudança.

ENCONTRO – Muitas crianças se expressam de forma muito agitada e agressiva, dentro e fora das escolas.  O sr. acredita que o modelo tradicional de educação pode estar contribuindo para esse quadro, já que enxerga as crianças, sobretudo, como "sujeitos" escolares, e não ouve os problemas, as angústias e as necessidades individuais?
José Pacheco – Nada mais certo. A violência explícita da competitividade na selva humana se junta à violência simbólica das tentativas de uniformizar seres únicos e irrepetíveis. Por outro lado, creio ter havido uma interpretação distorcida de determinadas propostas teóricas e parece já não ser possível educar com carinho e firmeza, porque deixou de haver limites. O pieguismo usurpou o espaço do amor maduro, mas sei que é possível inverter a situação. Também fui pai e sou avô. A autoridade (palavra que, etimologicamente, significa "ajudar a crescer") está ausente em muitos lares e escolas. O seu espaço é ocupado pelo autoritarismo e pela permissividade. Ouvimos falar da crise das instituições e, em particular, da crise da instituição família. Muitas crianças che- gam às escolas já destruídas por pais inseguros, permissivos ou prepotentes. Num tempo de narcisismo exacerbado, muitos pais se esquecem de educar os filhos e consideram as escolas como depósitos de alunos. Mas é com pais e professores que a criança encontra os limites do controle que lhe permite progredir em autonomia, na liberdade de experiência e de expressão, dentro de um sistema de relações e de trocas sociais.

ENCONTRO – Que papel os pais podem desempenhar, para ajudar as instituições de ensino a caminharem em direção a um modelo de educação que seja mais produtivo e, ao mesmo tempo, mais prazeroso para as crianças?
José Pacheco – Em muitas escolas, o leão ainda não aprendeu a pastar com o cordeiro. Professores e pais estão de costas voltadas. Existe divórcio entre a família e a escola. O que me surpreende, porque se os pais amam os seus filhos e desejam o melhor para eles, os professores também amam os seus alunos e para eles buscam o melhor. Há pais que reforçam a mesmice e outros que apoiam professores que arriscam fazer rupturas e interpelar inércias. A propósito, importará referir que são os pais que dirigem a escola (pública!) da Ponte, considerada escola "alternativa". O estatuto de pai não se confunde com o estatuto de professor. Nenhum pai pode ousar dizer a um professor como deve, ou não deve trabalhar. Mas o projeto de uma escola é um ato coletivo e só tem sentido no quadro de um projeto local consubstanciado numa lógica comunitária e pressupõe uma profunda transformação cultural.

ENCONTRO – O que fazer, então? Em  que os pais devem acreditar?
José Pacheco – As escolas deverão exigir das famílias e de outras instituições uma atitude pedagógica e de colaboração, num projeto de "cidade educadora" – como diz um provérbio africano, "é necessária toda uma tribo para educar uma criança". Não será já tempo de acabar com lamentações e com o discurso da desculpabilização, assumindo o discurso da possibilidade? A escola e a família enjeitam a responsabilidade da "frieza" e da "indiferença". Mutuamente, atribuem-se culpas. A escola e a família sofrem das doenças do século: solidão e narcisismo. Urge que as duas instituições, a par de outras, juntem ao fomento do desenvolvimento da autoestima o sentimento da heteroestima, buscando alternativas em escolas "alternativas".

ENCONTRO – Como seria a escola ideal, na sua visão?
José Pacheco – A resposta curial seria: escola ideal não existe. A escola continua sendo um "berço de desigualdades", mas também poderá ser a instituição onde podem ter origem os caminhos para uma sociedade mais justa e fraterna. A melhor escola do mundo é aquela que ainda não existe. Jamais existirá, se mantiver a configuração de escola que conhecemos. As escolas carecem de reconfiguração e até mesmo de uma gradual desinstitucionalização. A melhor escola será toda a escola que a todos der garantias de acesso e a cada um der condições de sucesso. Aquelas que fizerem dos seus alunos seres mais sábios e pessoas mais felizes. O velho paradigma educacional é responsável pelo insucesso e infelicidade de muitas gerações. É surpreendente que se continue a insistir em práticas inadequadas, mas não é possível, nem aconselhável, fazer design da escola ideal. Ouso somente dizer que não será uma escola repartida em séries, classes, ciclos, ou quaisquer outras segmentações. Será uma escola onde professores solidários hão de ocupar o espaço dos professores solitários. Uma escola que não se isole entre muros. De uma escola sem sentido, como é a atual, poderão emergir escolas com sentido, nas quais os professores darão sentido às suas vidas dando sentido à vida das escolas. Não sei como serão as escolas do futuro, mas sei que outros futuros são possíveis. A escola ainda é necessária, mas não esta escola, concebida há séculos, subordinada a objetivos que a sociedade de então estabeleceu, mas que, hoje, não fazem qualquer sentido.

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