Qual a importância da História? Entrevista com a historiadora Mary Del Priore

Qual é a importância da História?

Diretrizes
Educar – 13/03/2009 17:05
Texto de Juliana Bernardino

Entrevista Mary Del Priore
A historiadora brasileira fala sobre a importância de os pais participarem da Educação de seus filhos e valorizarem mais o professor e a escola

Mary Del Priore é renomada historiadora e escritora brasileira. Seus livros, que somam mais de 20 títulos, já receberam importantes prêmios da literatura nacional, como o Jabuti, por “História da Vida Privada” e “História das Mulheres no Brasil”, sendo que este último também recebeu o prêmio Casa Grande e Senzala, assim como outra produção de Mary, “História das Crianças no Brasil”. “O Príncipe Maldito”, uma de suas mais recentes publicações, foi considerado em 2007 o melhor livro de não ficção pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo.

Antes de se tornar essa escritora de prestígio, a carioca de 56 anos era mesmo uma leitora dedicada. E sua paixão pelos livros nasceu cedo. “Aos 10, eu lia tudo o que me caía nas mãos, inclusive os chamados autores proibidos, como Jorge Amado ou Henry Miller, motivo, certa vez, de suspensão escolar”, conta.

Hoje, está certa de que os pais têm grande poder de influenciar esse hábito nos filhos. “Penso que a presença de pais leitores é fundamental. Pais podem inscrever seus filhos em bibliotecas municipais ou ler junto com eles”, defende Mary, sem, no entanto, livrar os professores de sua responsabilidade: “A grande escritora infanto-juvenil Ana Maria Machado costuma dizer em suas palestras que o maior problema hoje são os professores que não leem e não podem transmitir para seus alunos a paixão pelo livro.”

A historiadora defende uma aproximação legítima entre família e escola, de forma que elas atuem como parceiras. “É necessário que as famílias se mobilizem em torno da escolarização de seus filhos, em parceria com a escola, zelando para que eles possam se realizar individualmente. É preciso reinventar o contrato entre a família e a escola, buscando uma relação de complementaridade”, afirma.

Na entrevista a seguir, Mary Del Priore fala sobre a relação família-escola, sobre a situação do professor no Brasil e sobre as dificuldades para se ensinar História. Além, é claro, da importância da leitura em todas as fases da vida.

1. Que lembranças que a senhora carrega de sua vida estudantil?

Mary Del Priore: Guardo as melhores lembranças do Colégio Sion, onde o método Montessori foi pioneiramente introduzido nos anos 60. Tínhamos excelentes professores e biblioteca à disposição. O ensino nos incentivava a refletir, buscando relações entre o mundo em que vivíamos e o outro, “lá fora”. Minha paixão por História nasceu nos primeiros anos do colegial, em contato com a matéria de História Contemporânea, ensinada por uma mestra dinâmica, entusiasmada e generosa. Nunca a esqueci: D. Ilma. Mais tarde, tive outra mestra importante para os meus estudos: Maria de Lourdes Parreiras Horta. Brilhante comunicadora e capaz de nos fazer voltar no tempo, por meio da História da Arte. Longe de ter sido uma boa aluna, fui, por outro lado, uma apaixonada por minha escola. Lá, aprendi a aprender.

2. Como nasceu sua paixão pelos livros?

Mary Del Priore: Tive o privilégio de sempre estar cercada de livros. Ainda menina, herdei a biblioteca de um tio e descobri o prazer das muitas viagens proporcionadas pela leitura. Não me lembro de ter frequentado casas onde não houvesse livros. Aos sete anos, ganhei de Natal as obras completas de Monteiro Lobato. Aos 10, eu lia tudo o que me caía nas mãos, inclusive os chamados autores proibidos, como Jorge Amado ou Henry Miller, motivo, certa vez, de suspensão escolar. Penso que, mais do que simplesmente ensinar palavras e sons, a leitura ensina um sentido para o texto.

3. Qual a importância da leitura para a Educação?

Mary Del Priore: A leitura é absolutamente fundamental para a Educação em qualquer idade: mesmo crianças muito pequenas podem e devem manusear livros. Um dia desses vi um livro de pano com mordedor para bebês. Vibrei! Penso que a presença de pais leitores é fundamental. Pais podem inscrever seus filhos em bibliotecas municipais ou ler junto com eles. Mas é preciso a participação de professores leitores também. A grande escritora infanto-juvenil Ana Maria Machado costuma dizer em suas palestras que o maior problema hoje são os professores que não leem e não podem transmitir para seus alunos a paixão pelo livro. A leitura de obras de literatura é fundamental até para o estudo de História. É uma maneira eficiente de se “entrar no tempo” e conhecer a história cultural de um grupo, povo ou país.

4. Educação pode transformar o Brasil?

Mary Del Priore: Pode, mas não só. É preciso que a sociedade brasileira valorize mais a escola e o professor. De nada servem programas de cotas ou similares se, ao chegar em casa, o aluno não encontra pais interessados que o entusiasmem em seu aprendizado. E o que dizer da falta de inter-relação entre pais e escolas? Por que aqui, como nos paises desenvolvidos, pais não colaboram para que as escolas de seus filhos estejam sempre em ordem, bonitas e bem tratadas? Quem não pode, num fim de semana, promover um mutirão e fazer algo para o bem da coletividade? E o que dizer das representações que pairam sobre o professor na mídia: figura menor e sem interesse. Abandonado a própria sorte, com salários defasados, sem estímulo ou respeito por parte da sociedade, o professor tem que remar contra muitas dificuldades para fazer valer e reconhecer sua posição. Sempre me pareceu um paradoxo o fato de colocarmos três milhões de pessoas na rua para assistir à Parada Gay e não conseguirmos mobilizar o mesmo número em prol da Educação.

5. A escola acompanhou as mudanças ocorridas no Brasil?

Mary Del Priore: Passamos de uma sociedade de tradição oral para uma sociedade escolarizada, e isso graças ao esforço de operários anarquistas e comunistas que, a partir dos anos 20, do século XX, exigiram escolas públicas para seus filhos. Antes, para as crianças de camadas desfavorecidas, a prioridade era o ensino técnico. Hoje, temos ensino para todos, mas não sabemos como transmitir conhecimentos que formem os futuros cidadãos. Para isso é necessário – como sugere Edgard Morin – uma reforma do pensamento que rompa o enclausuramento das disciplinas. Mais ensinando a pensar a globalidade e a multidimensionalidade do que competências particulares e especializadas.

6. A família deve participar dos estudos da criança?

Mary Del Priore: A participação da família pode significar um “capital cultural” para o aprendizado. Hoje há informação suficiente na mídia para que os pais percebam que a participação deles é visceral para o bom desempenho de seus filhos, numa sociedade cada vez mais competitiva. Eles também devem ter uma atitude educativa eficiente em relação à escola: contato frequente com os professores, valorização do estabelecimento, participação em momentos de lazer que agreguem conhecimento. É necessário que as famílias se mobilizem em torno da escolarização de seus filhos, em parceria com a escola, zelando para que eles possam se realizar individualmente. É preciso reinventar o contrato entre a família e a escola, buscando uma relação de complementaridade.

7. Qual a importância de ensinar os alunos a pesquisar?

Mary Del Priore: A pesquisa é um excelente instrumento de melhoria das condições de aprendizado, pois ela promove a inteligência do aluno. Recortar um tema ou um questionamento e levar o aluno a, sozinho, buscar respostas e propor soluções é fundamental para que ele desenvolva suas competências. O diálogo com o professor pode ser acionado para julgar a validade de suas respostas e se possível, verificá-las. Não se trata de fazê-lo descobrir as possíveis respostas, mas de convidá-lo a formular perguntas e respostas.

8. Qual é o maior problema no ensino de História no Brasil?

Mary Del Priore: O maior problema da disciplina é fazemos História num país sem memória. Uma discreta política de esquecimento se abate sobre a sociedade brasileira. Caberia bem certa definição de Paul Ricoeur, filósofo francês, quando diz que “como os velhos, temos muitas lembranças e má memória”. Esquecemos os problemas nacionais – os mártires da violência urbana ou os escândalos impunes. Poderíamos dizer, parafraseando o atual presidente da república que “nunca dantes” se esqueceu tanto neste país! Não seremos jamais o que fomos, pois não sabemos conservar o que somos.

Outro problema que vejo é que a História renunciou a encarar os problemas do ensino, transformando-o numa produção sem encanto. Tudo indica uma extraordinária degradação dos programas de História nas escolas, sem que seja dado um grito de alarme e resistência. Tais alunos seguem para os cursos de humanas caminhando na direção de um futuro sem futuro. Sua empregabilidade é baixa. Sua cidadania econômica, pior ainda. E eu não tenho ouvido manifestações de grandes e renomados historiadores, em passado recente ou agora, em defesa da escola e do ensino de História.

9. A nova história chegou à escola?

Mary Del Priore: O fato é que a História escolar continua sendo feita sobre velhas fórmulas. A renovação historiográfica dentro das universidades pouco lhe atinge. Alguns reagirão dizendo que a História feita dentro da universidade nada tem a ver com os bancos escolares; que a pesquisa de ponta não pode ser engessada pela função social de atingir os primeiro e segundo graus. O problema é que a história detém um saber sobre a sociedade. Se ela abandona temas centrais que dizem respeito à totalidade da história do país em detrimento de pesquisas demasiadamente particulares, ela deixa de lado a tarefa de fazer o aluno se tornar parte da vida social, privando-o de utensílios intelectuais necessários para fazê-lo compreender a sociedade da qual faz parte como cidadão. O problema da Educação formal será, cedo ou tarde, equacionado e os historiadores têm dito pouco sobre como participar desta transformação.

10. Como é ensinada a história aos professores?

Mary Del Priore: As faculdades de História não pensam um currículo capaz de inserir o aluno no mundo profissional. O inferno – o Ensino Fundamental – ou o céu – as universidades – parecem ser as únicas escolhas. É lamentável, pois o historiador pode estar presente em vários outros espaços: nos meios de comunicação, nos museus, nos arquivos, produzindo conteúdos para as redes de Internet, trabalhando com Turismo Cultural. É preciso pensar uma grade mais dinâmica, de acordo com as reais possibilidades de inserção de tantos jovens, ao invés de cuspir anualmente milhares de formandos despreparados para o exercício pleno da profissão de historiador. Na pós-graduação predominam os historiadores monotemáticos, pois os trabalhos pontuais e sem erudição não dão tempo ao pesquisador de amadurecer intelectualmente. A maioria só conhece o pequeno recorte sobre o qual braceja desde a graduação.

11. Qual é a importância da História?

Mary Del Priore: A história tem um compromisso com a responsabilidade, a exigência ética e a vontade de verdade na transmissão dos conhecimentos. Junto a essa “exigência de verdade”, os valores do humanismo e a busca de um sentido para a coletividade sinalizam a presença dos historiadores na cena intelectual.

Extraído de: http://paginadacultura.com.br/br/qual-e-a-importancia-da-historia/

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