Aos alunos do 6º semestre de Pedagogia: Texto 2

Texto a ser trabalhado no dia 30/10/2009

Em breve a escola que é um eterno recreio

Parece ser a escola dos sonhos de muitos estudantes. Não tem prova, não existe lição de casa, o recreio pode ser a qualquer hora, o aluno escolhe seu educador, só participa das atividades se quiser e ainda pode rabiscar as paredes do colégio. Na Lumiar, escola que começa a funcionar na capital em fevereiro do ano que vem, tudo é decidido pelos estudantes: dos cursos que serão oferecidos ao modo como o orçamento deve ser gasto.

"Nossa escola vai ter a obrigação de ser interessante para o aluno. Ele poderá escolher o que fazer e democracia e liberdade serão as palavras-chave aqui", explica a coordenadora-pedagógica da Lumiar, Helena Singer. "Nessa nova forma de ensinar, vamos romper o ensino disciplinar e seriado."

Isso quer dizer que não há divisão por séries, que alunos de idades diferentes estudarão juntos e que o colégio não ensinará as disciplinas tradicionais separadamente. "Não vamos ter aulas de história, português, física. Nos cursos oferecidos, os conceitos das matérias serão trabalhados integrados, sem que os alunos percebam", diz Helena. "Mas, se eles decidirem que querem ter aula só de física, terão."

Sendo assim, também não há um professor para cada disciplina. "Teremos mestres – especialistas de suas áreas -, que darão os cursos definidos pelos alunos, e educadores, que acompanharão todo o desenvolvimento da criança", explica. "O educador ajudará a avaliar o estudante, já que não há provas."

Ela afirma que há alguns projetos já definidos, como as aulas dadas por malabaristas para trabalhar a coordenação motora das crianças ou as de culinária, para ensinar proporções. "A manutenção deles dependerá do interesse dos alunos. Se resolverem que não querem mais, os cursos acabarão."

E se o aluno odiar matemática e não freqüentar as atividades que envolvam a matéria? Helena diz que nenhum aluno sairá da Lumiar sem ter aprendido as noções básicas da disciplina. "Para nós, é impossível que alguém se forme sem nunca ter tido noção de matemática, porque ela estará na aula de música, na de culinária e até nas reuniões que decidirão como gastar o dinheiro do colégio", explica. "O conhecimento necessário no cotidiano acabará sendo incorporado e o estudante terá uma noção geral das matérias básicas. Só que poderá se aprofundar nas suas paixões."

Alunos irão impôr seus próprios limites

Toda semana, estudantes e educadores se reunirão em assembléias para avaliar o andamento da escola, decidir os gastos, escolher novos cursos. Nesses encontros também serão definidas as regras da escola. "Os limites serão impostos pelos próprios alunos e o que percebemos é que as crianças costumam ser mais severas do que os adultos", diz Marina Marcondes Bojikian, uma das educadoras. "Além disso, elas respeitam mais as regras definidas por elas mesmas."

Outra proposta da Lumiar é misturar alunos ricos e pobres. As vagas serão divididas igualmente entre os quem podem pagar 100% da mensalidade (R$ 480 por seis horas ou R$ 960 por doze), 75%, 50%, 25% ou nada. "Queremos reproduzir a realidade dentro da escola e, assim, teremos estudantes de todas as classes", afirma Ricardo Semler, autor do projeto da escola. "E não acreditamos que as tensões entre essas crianças sejam maiores do que as que existirão por diferenças de cultura, religião ou relação com os pais.

Crianças que convivem com classes sociais distintas diminuem o preconceito que criariam mais tarde em escolas segregadas."

Semler – que escreveu o livro Virando a Própria Mesa, no qual conta como multiplicou os ganhos da sua empresa ao dar poder aos funcionários – também garante que os mais ricos não pagarão as mensalidades dos mais pobres. "Os alunos carentes serão mantidos por patrocinadores e pela fundação Semco." A seleção será feita por sorteio.

No ano que vem, a Lumiar começa com estudantes de 4 a 6 anos. "Haverá capacidade para 60 alunos em 2003 e, dentro de cinco anos, queremos ter até o ensino médio", afirma Helena. Na educação infantil, a alfabetização se dará por meio de um "processo natural", conta a coordenadora-pedagógica.

"Não vamos impôr nada. Quando a criança se sentir preparada, ela pedirá para aprender a ler e a escrever e, então, ensinaremos. Mas vamos respeitar o momento de cada uma."

Seguindo esse ritmo, os pais terão de controlar a ansiedade. "Eles também não estão preparados para essa nova escola e é por causa disso que faremos um trabalho permanente", diz Helena. "Até se acostumarem que o filho não passa de ano, que não há horários rígidos aqui, será complicado. Mas vamos aproximá-los do colégio. A Lumiar estará com as portas abertas todos os dias para que almocem com seus filhos, por exemplo."

Marina afirma que os pais também não precisarão se desesperar quanto ao vestibular. "Essa é uma das principais preocupações que eles têm, mas acreditamos que nossos alunos terão mais condições de se preparar para o vestibular porque eles aprenderão a aprender, ou seja, saberão onde e como buscar as informações", afirma. "Mesmo que não tenham visto todo o conteúdo exigido pelos vestibulares, terão como recuperar isso, já que estarão com a mente aberta."

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DANIELA TÓFOLI Jornal da Tarde

Extraído de Jornal O Estado de SP – 08/10/2002 clip_image002[1]

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