Aos alunos do 6º semestre de Pedagogia – Texto 1: para ser trabalhado na aula do dia 28/10/2009

A Escola do Futuro e o Conflito*

Diz-se, de modo geral, que ocorreram 3 grandes revoluções que alteraram na raiz a forma de conceber e produzir a educação e o ensino. A primeira delas foi o surgimento da escola como espaço destinado ao ensino, acarretando a sistematização do processo como algo deliberado, especializado e focado. O Ensino deixa de ser familiar e difuso para ser institucional e sistêmico.

A segunda revolução surge com a criação dos sistemas escolares públicos. Este período é marcado pelo surgimento da ação do Estado no processo de transmissão do conhecimento e da cultura. Passa-se do paradigma privado para o público; passa-se do princípio da gestão de muitas escolas diferentes e privadas para o princípio da concentração do ensino por meio de redes de escolas; passa-se do modelo religioso de administrar a escola para o modelo burocrático homogeneizante de controle administrativo. Somado ao surgimento da imprensa, este período organiza a estrutura escolar em disciplinas e em níveis, e marca o surgimento do código de disciplina escolar.

A terceira revolução, quando ocorrer definitivamente no Brasil, trará conseqüências vitais para a sociedade. A terceira revolução é a da educação massificada. No Brasil, isto esta caracterizado pelo índice médio de 97% de crianças no ensino fundamental – deixo de tratar de outros temas possíveis derivados deste índice e seus rebatimentos. Pode parecer bom, mas a Suécia tinha 1% de analfabetos em 1875. A massificação educacional brasileira ainda fica a desejar se comparada a média mundial: entre 1950 e 1960 a matrícula primária cresceu 50%, enquanto a cobertura dos ensinos secundário e superior dobraram. Este fenômeno se repete nas décadas seguintes. O Brasil esta apenas começando a viver o fenômeno da massificação da educação.

Este fenômeno, mesmo que em etapa inicial, traz algumas reflexões necessárias e que devem ser realizadas com um olho no passado – para aprender – e outro no futuro – para antecipar.

Em 1940, os sete maiores problemas das escolas americanas eram: (1) falar em ocasiões impróprias; (2) mascar chicletes; (3) fazer barulho; (4) correr nos corredores; (5) furar filas; (6) desrespeitar as normas sobre o modo de se vestir e (7) fazer desordem. A mesma pesquisa foi realizada em 1990 e os sete maiores problemas identificados foram: (1) abuso de drogas; (2) abuso de álcool; (3) gravidez; (4) suicídio; (5) estupro; (6) roubo e (7) assalto. Logicamente, estes sete problemas têm relação direta e diferente com os 3 grande atores envolvidos no contexto da violência: a comunidade, a família e a escola. Trataremos aqui mais diretamente deste último.

É de se esperar que o Brasil, que inicia o processo de massificação da educação, passe por problemas semelhantes àqueles que já vivem os países que massificaram vários níveis de ensino. Hoje, assistimos aqui a repetição dos sete problemas americanos identificados há 12 anos atrás. Eis as questões: o que está sendo feito para se antecipar ao problema já conhecido? Como se decide hoje com vistas ao enfrentamento corajoso do problema visando superá-lo?

A escola é o espaço onde a sociedade acredita como ideal para reproduzir seus valores tidos como importantes para sua manutenção. Ocorre que a própria família passou a delegar à escola funções educativas que historicamente eram de sua responsabilidade, acarretando uma mudança no perfil de comportamento do aluno. Por outro lado, a massificação da educação trouxe para dentro do universo escolar um conjunto diferente de alunos, sendo certo que a escola atual – da maneira como está organizada e da maneira como foram formados os professores –, só está preparada para lidar com alunos de formato padrão e perfil ideal.

A massificação ampliou o número de alunos e trouxe um aluno de perfil diferente daquele com o qual escola esta preparada para lidar. Isto acarretou uma desestabilização da ordem interna histórica. Está criado o campo do conflito!

Somada a esta desestruturação da instituição escolar, temos a perda do poder aquisitivo dos professores, a ampliação das redes públicas sem profissionalização de gestores, a cobrança das comunidades sem a existência de canais maduros para a relação escola-comunidade, o desemprego dos alunos-trabalhadores e dos membros de das famílias, o descontrole do poder público sobre a criminalidade organizada.

É esperado que a escola sofra as conseqüências da sociedade onde está inserida. Mas não é só isto. Além de uma caixa de ressonância social, a escola possui seus próprios campos de relação e cria conflitos específicos na relação escola/comunidade, diretor/professor, professor/professor, professor/aluno e aluno/aluno, com características próprias e já conhecidas de alguns estudiosos e de alguns governos que viveram o problema antes de nós. Isto pode e deve ser antecipado pelos atores envolvidos no processo decisório: governantes, diretores, professores, educadores, pais e até alunos.

Os infelizes acontecimentos nas cidades alemãs de Erfurt e Freising, e antes delas nas cidades americanas de Grundy (Virginia), Littletown (Colorado) e Jonesboro (Arkansas), onde alunos mataram professores e colegas, são reflexos de uma sociedade violenta sim, mas antes de tudo, resultam dos conflitos próprios da escola, que podem e devem ser antecipados, a fim de se encontrarem remédios eficazes como, por exemplo, a capacitação de diretores, professores e alunos para a mediação de conflitos, conforme já realizado em outros locais como EUA, França, Bélgica e Argentina, principalmente.

O que temos percebido recentemente na mídia: morte de professor por estudante, morte de estudante por outro estudante, escolas fechadas pelo crime organizado, pais amedrontados nos horários de aula e outros tantos eventos similares são o início de um conjunto infeliz de acontecimentos envolvendo o universo escolar. A pesquisa sobre os sete problemas americanos serve para os nossos problemas e para alertar as autoridades decisórias sobre o cenário futuro!

É indispensável que diretores e professores sejam preparados para lidar com os “diferentes” – quer no ensino, quer na avaliação, quer na relação; que sejam instrumentalizados para identificar o conflito antes de seu surgimento e preparados para mediar o conflito quando de seu estabelecimento.

E, acima de tudo, governantes e educadores devem estar atentos para o fato de que o conflito não é o inimigo da “ordem” que sempre imperou na escola. O conflito é o resultado dos “diferentes e das diferenças” que hoje já podem conviver no espaço escolar. Logo, devemos aprender a lidar com esta situação irreversível, antecipando decisões a fim de que, quando o problema surgir mais fortemente, estejamos aptos a lidar com ele.

A escola de antes era a escola dos “iguais”. A escola de massa e do futuro será a escola dos “diferentes” e da diversidade, o que pede uma gestão escolar apropriada, a partir da visão do futuro que nos aguarda!

* Texto elaborado por Álvaro Chrispino, Doutor em Educação. Foi Subsecretário de Estado de Educação/RJ e Conselheiro Estadual de Educação/RJ. Atualmente é Secretário de Planejamento de Teresópolis e Diretor da Fundação Educacional Serra dos Órgãos – Teresópolis. Este artigo foi publicado no jornal O Globo, no dia 03 de junho de 2002, na página 07.

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