Aos alunos do 5º termo de História – disciplina: História e cultura afro-brasileira

Segue abaixo os links para os textos a serem analisados em sala de aula:

Texto: A História da África nos bancos escolares. Representações e imprecisões na literatura didática.

http://www.scielo.br/pdf/eaa/v25n3/a03v25n3.pdf

Texto:  COMPREENDENDO A ÁFRICA E A HISTÓRIA DO NEGRO NO ÂMBITO ESCOLAR.

http://forum.ulbratorres.com.br/2008/mini_curso_texto/M-CURSO%201%20-%20,%20Adelmir.pdf

PS. Providenciar as cópias necessárias.

Aos alunos do 1º semestre de História e Geografia

A Historiografia: PROGRESSOS E RETROCESSOS DA HISTORIOGRAFIA

Por Cristiano Catarin – Extraído de http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=950

Introdução
Diante das transformações mundiais registradas em ritmos cada vez mais acelerados, diante da renovação das “permanências”, dos valores e ações do homem, diante do resgate do tempo e do espaço, a escrita da história depara-se com um novo desafio e uma feliz proposta disposta a abordar as mais diversas intervenções do homem ou dos homens em diferentes períodos e circunstâncias, sem privilegiar personagens “ilustres”. Existe uma tendência consciente e decidida em problematizar e considerar as relações estabelecidas também no passado das resistências, das manifestações, dos personagens “iletrados”. Essa tendência procura visitar o “instante” e o “momento”, objetivando o sentido do tempo e das manifestações do homem neste mesmo tempo em relação á outros tempos.

Um passado sem futuro
A história positivista defendida por F. Simiand e P. Lacombe no século XIX representava e considerava o passado imutável, disposto a valorizar dimensões políticas e grandes personagens históricos da humanidade, era a chamada “história oficial”. Esta teoria positivista desconsiderava também as mudanças e inovações ocorridas, de maneira dinâmica, no âmbito privado. A história positivista e “tradicional” sempre buscou e defendeu uma representação unilateral do real e da “verdade histórica”. Uma nova tendência, uma nova maneira de se registrar a história percebeu-se que a dimensão positivista não dá conta de ampliar os elementos que estão envolvidos nos processos históricos.
A história positivista, factual e tradicional do século XIX mostrou-se insuficiente para atender os objetivos da atual produção historiográfica. O historiador Marc Bloc sempre defendeu a consideração e existência de um passado mutável e problemático, que, por meio da investigação histórica, permite representar (pesquisar) o homem agindo dentro de seu tempo ou tempos.
Bloch foi um dos precursores a defender uma nova formatação da pesquisa histórica por meio da chamada “Nova História”, considerando novas forças e uma nova visão do passado que não está alienado da interpretação, pois tem sim um sentido e diferentes representações a serem trabalhadas pelo historiador contemporâneo.

Uma nova abordagem histórica
Para o historiador Marc Bloch o passado deve ser abordado de outra maneira, valorizando outros elementos que compõe a história. O homem é um personagem histórico que não é imutável e sim dinâmico em seu tempo. A história positivista não considera relevante o contexto histórico inserido em diferentes personagens e representações do fato e sim numa única versão ou única “verdade”.
A revista dos annales criada por Bloch e Lucien Febvre ganhou sua primeira edição em 1929, “dando origem a um novo movimento de renovação da historiografia francesa e que está na base do que hoje chamamos de [nova história]”. Trata-se também de uma nova maneira de registrar e interpretar a história, trabalhando com múltiplas representações. A renovação caminha ao lado da inovação, ambas precisam constantemente consultar a história para serem bem sucedidas em seus objetivos de representar as “mudanças” e também o futuro.

A história para “todos”
A historiografia contemporânea felizmente está demonstrando disposição para a consideração de uma amplitude de temas. A escrita da história está ganhando novos espaços e também novos instrumentos, estabelecendo, por exemplo, diálogos interdisciplinares com outras importantes áreas do o conhecimento como a sociologia, a antropologia, a física, a economia, a geografia, etc. Esta dimensão reúne a capacidade de formatar um processo de investigação cada vez mais apurado e consciente do passado histórico, valorizando diferentes elementos da cultura humana no âmbito público e privado. As tendências da historiografia contemporânea estão revelando que a história do “outro” também contém significados e representações muito relevantes para compreensão do processo e “recorte” das ações do homem no tempo.
Esta preocupação historiográfica apresenta novos métodos de abordar o passado e suas múltiplas representações e integrações intelectuais, compondo a chamada “história cultural”. Para o historiador Ronaldo Vainfas a história cultural “não recusa de modo algum as expressões culturais das elites ou classes [letradas], mas revela especial apreço, tal como a história das mentalidades, pelas manifestações das massas anônimas: as festas, as resistências, as crenças heterodoxas…”.
Vainfas diz ainda que este gênero historiográfico representa um refúgio da história das mentalidades, abordando a consideração do “mental”, sem contudo, desconsiderar a história como disciplina ou ciência, procurando corrigir os defeitos teóricos, segundo ele, deixados pela história das mentalidades. Para Vainfas a história cultural “… revela uma especial afeição pelo informal e, sobretudo, pelo [ popular]”.

A dinâmica do passado
Falar de história sempre implica em grande responsabilidade e, sobretudo, cautela frente às novas tendências historiográficas e novos elementos que vem sendo abordando e incorporando historicamente. Quem já não se deparou com a frase: a história é a ciência que estuda o passado para melhor compreender o presente, talvez na tentativa de não cometer os mesmos erros do passado no futuro.
Para o historiador Marc Bloch esta afirmação é pobre e incorreta. Limitar a história ao conhecimento e deslocamento ao passado não explica a complexidade contida na abordagem das mudanças proferidas pelo homem, ou pelos homens, no tempo ou nos períodos. Qualquer vestígio de alteração provocada por um ato social, por menor que este seja, compromete-se com a história. Bloch diz ainda que “a própria idéia de que o passado, enquanto tal, possa ser objeto de ciência é absurda. Como, sem uma decantação prévia, poderíamos fazer, de fenômenos que não tem outra característica comum a não ser não terem sido contemporâneos, matéria de um conhecimento racional?”
A aceitação e consideração de “todos” os elementos contidos numa representação do passado é uma característica das tendências da historiografia contemporânea. A chamada história cultural trás para si um sólido comprometimento com os paradigmas e transformações do passado, desconstruindo uma abordagem imutável e pobre de significados.
Para Hobsbawm “o passado é uma dimensão permanente da consciência humana, um componente inevitável das instituições, valores e outros padrões da sociedade humana.” Hobsbawm entende ainda que o historiador tem a responsabilidade de abordar a origem do “sentido do passado”. Esta responsabilidade empregada ao historiador revela a necessidade da utilização das considerações da história cultural. Por outro lado, isto não significa uma desconsideração por completo da história positivista ou tradicional. A história cultural tem a capacidade de considerar tais elementos (que eram abordados frequentemente) e ampliar a “esfera” de significados que permeiam as representações do passado histórico.
Apesar do ritmo avassalador das mudanças contemporâneas, o passado, segundo Hobsbawm ainda é uma ferramenta fundamental para lidar com tais mudanças, porém, de uma nova forma. O passado (se converte) “na descoberta da história como um processo de mudança direcional, de desenvolvimento ou evolução”.

A história e o futuro
A inovação beneficia-se da história para elaboração do processo de significados e também da estruturação da forma do futuro. Para Hobsbawm a história é dinâmica de tal forma que consegue reunir a capacidade de colaborar com previsões teleológicas. Por mais dinâmico e acelerado que sejam os ritmos da humanidade contemporânea que tem alcance a altíssimos níveis de tecnológica, ainda assim, as estruturas intelectuais recorrem à história como mecanismo imprescindível na elaboração e re-elaboração de significados e representações do real. Há história em toda ação social, independente do ritmo aplicado conseqüente duma transformação de curta ou longa duração.
Concomitante a esta apresentação, não deixa de ser intrigante o fato de procuramos entender a história como instrumento de apoio na “previsão” de aspectos futuros. Vejamos o que o historiador Eric Hobsbawm diz a respeito:

“ …, passado, presente e futuro constituem um continuum. Todos os seres humanos e sociedades estão enraizados no passado – o de suas famílias, comunidades, nações ou outros grupos de referencias, ou mesmo de memória pessoal – e todos definem sua posição em relação a ele, positiva ou negativamente. Tanto hoje como sempre: somos quase tentados a dizer “hoje mais que nunca”. E mais, a maior parte da ação humana consciente, baseada em aprendizado, memória e experiência, constitui um vasto mecanismo para comparar constantemente passado, presente e futuro. As pessoas não podem evitar a tentativa de antever o futuro mediante alguma forma de leitura do passado. Elas precisam fazer isto. Os processos comuns da vida humana consciente, para não falar das políticas públicas, assim o exigem. E é claro que as pessoas o fazem com base na suposição justificada de que, em geral, o futuro está sistematicamente vinculado ao passado, que, por sua vez, não é uma concatenação arbitrária de circunstancias e eventos. As estruturas das sociedades humanas, seus processos e mecanismos de reprodução, mudança e transformação, estão voltadas a restringir o numero de coisas passiveis de acontecer, determinar algumas das coisas que acontecerão e possibilitar a indicação de probabilidades maiores ou menores para grande parte das restantes.”

Considerações finais
Os rumos anunciados pela historiografia contemporânea estão gerando expectativas consistentes para historiadores favoráveis as abordagens estabelecidas pelo gênero, por exemplo, da história cultural. Alguns estudiosos mencionam um retorno da narrativa. Para o historiador Ronaldo Vainfas a história sempre foi uma narrativa, independente das opiniões recentes de pesquisadores acadêmicos. O fato é que a história está acumulando, com o passar do tempo, maior credibilidade e estrutura metodológica.

Bibliografia de apoio

HOBSBAWM, Eric (1997) Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras

BLOCH, Marc (2001) Apologia da História ou Oficio de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor

CARDOSO, Ciro Flamarion & VAINFAS, Ronaldo (orgs.) [1997] Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus.

Aos alunos do 3º termo de História e Geografia

Documentos históricos trabalhados em sala:

1. As transformações econômicas

(…) Godric decidiu não levar a vida de camponês, mas estudar (…) Foi por isso que, como aspirava a ser comerciante, começou a se bufarinheiro e aprendeu a ganhar dinheiro vendendo mercadorias de pouco valor (…) e, depois, de grande valor (…) No princípio percorria as aldeias e as quintas dos arredores com pequenos artigos; depois, pouco a pouco, associou-se com mercadores da cidade. Assim adquiriu experiência, percorrendo cidades e burgos, feiras e mercados (…)

(Reginaldo de Durham, Vida de Santo Godric, século XI)

2. O surgimento das cidades (Bruges atual Bélgica)

(…) Para as necessidades dos habitantes do castelo, começaram a afluir diante da sua porta, junto da ponte, negociantes, depois taberneiros e hoteleiros (…) Tantos habitantes aí acorreram que em breve nasceu uma cidade (…)

(Jean Le Long, Crônica de São Bertino, século XI)


3. A liberdade que existia nas cidades em relação às obrigações feudais

(…) Quem residir um ano e um dia na paróquia de Lorris, sem que qualquer reclamação tenha sido feita contra ele (…), pode aí permanecer livremente e sem ser molestado (…)

(Constituição da cidade de Lorris, na atual França, 1155)

4. O comércio nas feiras de Champagne

Todas as companhias de mercadores e também os mercadores individuais, italianos, transalpinos, florentinos, milaneses, luqueses, genoveses, venezianos, alemães, provençais e os de outros países, que não pertencem ao nosso reino, se desejarem comerciar aqui e desfrutar os privilégios e os impostos vantajosos das mencionadas feiras (…) podem vir sem perigo, residir e partir – eles, suas mercadorias e seus guias (…) sem que estejam jamais sujeitos a apreensão, prisão ou obstáculos, por outros que não os guardas das ditas feiras (…)(Ordenança do Rei da França, 1439)

5. O intenso comércio na cidade de Veneza, no século XV

(…) Senhores, graças à paz a nossa cidade investe um capital de 10 milhões de ducados através do mundo inteiro, em parte por meio de naves, em parte por meio de galés e outros navios, de tal maneira que daí retiramos um benefício de 2 milhões de ducados com a exportação e de outros 2 milhões de ducados com a importação para Veneza, ou seja, 4 milhões no total. Temos a navegar três mil embarcações de dez a duzentas ânforas (de capacidade), tripuladas por 17 marinheiros. Temos 300 naves, tripuladas por 8.000 marinheiros. Pequenas ou grandes, 45 galeras navegam cada ano, com 11.000 marinheiros.

Felizes vós e vossos filhos! Vistes a nossa cidade cunhar cada ano um milhão e duzentos mil ducados de prata (…) As compras que nos faz a Lombardia levam à navegação de um grande número de barcos e de galeras à Síria, à România, à Catalunha, à Flandres, à Chipre, à Sicília e a outras regiões do globo. (Desse negócio resulta) para os Venezianos um lucro de 600.000 ducados (…) e desse trabalho vivem largamente vários milhares de pessoas (…) Vistes que os Florentinos nos fornecem cada ano 16.000 panos, muito finos, finos e médios. E nós os exportamos para Pouille, Nápoles, Sicília, Catalunha, Espanha, Barbaria (norte da África), Egito, Síria, Chipre, Rodes, România, Candia, Moréia, Lisboa; e cada semana os Florentinos nos trazem 7.000 ducados, o que faz 350.000 ducados por ano, para nos adquirirem lãs francesas e catalãs, carmesim, cereais, seda, cera, ouro, prata em bruto e fiada, açúcar, especiarias (…) alúmem, índigo, couro, jóias, com grandes lucros para a nossa terra (…)

(Marino Sanuto, Vida dos duques de Veneza)

6. Diálogo entre Colombo e dois árabes quando desembarcou em Calicute

(…) – Que diabo viestes procurar tão longe, na Índia?

Sem hesitar, Vasco da Gama respondeu:

– Cristãos e especiarias (…)

(Álvaro Velho, Roteiro da primeira viagem de Vasco da Gama – 1497-99)

7. Os poderes de Filipe II, rei absolutista da Espanha

(…) E, em matéria de Estado, ele (Filipe II) não poupava ninguém que tivesse falhado, fosse grande, fosse pequeno, e segundo as ocorrências ele lhe instaurava o processo sozinho, por sua mão e o fazia punir (…) nenhuma pessoa viva lhe falava senão de joelhos (…) e poucas vezes se deixava ver ao povo, e mesmo aos grandes, a não ser em dias solenes (…)

(Conde de Cheverny, Memórias, 1528-99)

8. Os cortesões das cortes

…não servem para nada. Se Sua Majestade dá uma ordem, eles repetem a grandes gritos essa ordem através dos corredores do Louvre, e se ela entreabre um pouco a boca para rir negligentemente, eles escancaram a boca à força de rir (…) sem saber por quê! (…)

(J Levron, Os cortesões)

9. A proteção dos reis ao comércio

(…) o Rei proíbe a todos os capitães e homens de guerra que ataquem mercadores, trabalhadores, gado ou cavalos ou bestas de carga, seja nos pastos ou em carroças, e não perturbem, nem às carruagens, mercadorias e artigos que estiverem transportando, e não exigirão deles resgate de qualquer forma; mas sim que tolerarão que trabalhem, andem de uma parte a outra e levem suas mercadorias e artigos em paz e segurança, sem nada lhes pedir, sem criar-lhes obstáculos ou perturba-los de qualquer forma. (…)

(Ordenança do Rei da França, 1439)


10. O vínculo econômico entre os reis e os burgueses

(…) Sir Robert de Ashely, representando o Rei, foi à Municipalidade de Londres e em nome do Rei convocou o Alcaide e os Intendentes da Cidade (…) a comparecerem perante o Rei Nosso Senhor e seu Conselho (…) E o Rei então fez oralmente menção das despesas que realizara em sua guerra em países além do mar, e que ainda teriam de ser feitas e pediu-lhes um empréstimo de vinte mil libras esterlinas (…) Unanimemente eles se prontificaram a emprestar-lhe cinco mil marcos, soma que, segundo disseram não poderiam ultrapassar. Ao que o Rei Nosso Senhor rejeitou imediatamente, ordenando ao Alcaide, Intendentes e outros que se lembrassem do voto de lealdade que lhe deviam e pensassem melhor sobre o assunto em questão (…) E embora isso fosse difícil, eles concordaram em emprestar cinco mil libras ao Rei Nosso Senhor, o que foi por este aceito. Doze pessoas foram escolhidas e juradas para procurar todos os homens das cidades mencionadas (…) e todos segundo sua condição para levantar a dita soma de cinco mil libras e emprestá-la ao Rei Nosso Senhor. (…)

(Memórias de Londres e da vida londrina, século XIV)

11. Texto de um importante banqueiro ao imperador da Espanha e do Sacro Império Romano-Germânico, Carlos V

(…) Além disso, adiantamos aos emissários de Vossa Majestade uma grande quantia, parte da qual nós mesmos tivemos que levantar, através de amigos. É bem sabido que Vossa Majestade Imperial não teria obtido a coroa do Império Romano sem a minha ajuda, e posso prova-lo com os documentos que me foram entregues pelas próprias mãos dos enviados de Vossa Majestade. (…)

(Jacob Fugger, Carta a Carlos V, século XVI)

12. A mudança da posição da Igreja em relação a usura

(…) Se se pratica o comércio com vistas à utilidade pública, se se deseja que as coisas necessárias à existência não faltem ao país, o lucro (…) é apenas (…) remuneração do trabalho (…) Nada impede portanto de praticá-o para um fim necessário ou honesto. (…)

(Santo Tomás de Aquino, Suma teológica, 1272)

13. A idéia que os chineses tinham do mundo no século XVI e XVII

(…) com o título de descrição universal do mundo inteiro (…) reduziam a extensão da Terra às suas quinze províncias e, no mar pintado em volta, juntavam algumas pequenas ilhas com nomes de reinos dos quais eles haviam alguma vez ouvido falar. Todos esses reinos reunidos dificilmente igualavam em tamanho a menor província do Império chinês, o que fez com que, sem hesitação, ornassem seu império com o nome de todo o universo, chamando- o ‘Thien hia’ ou, como diríeis: ‘tudo o que está sob o céu’. Quando, portanto, eles ouviram e viram que a China estava confinada a um canto do Oriente, admiraram como coisa para eles inaudita essa descrição tão contrastante, em sua opinião, do universo. Desejaram poder ler a escritura, para julgar a verdade da mesma. (…)

(Matteo Ricci, História da expedição cristã ao reino da China, 1582-1610)

14. O imaginário (sereias)

(…) Entre os moluscos há um peixe com rosto e seios de mulher, do tamanho de um novilho, cuja carne tem gosto de vaca. Dizem que seus dentes são um bom remédio para disenteria.(…)

(Ganeau, Tratado da história natural, século XVII)

15. A importância dos novos instrumentos

(…) Dois anos depois (1462) o senhor rei Afonso armou uma grande caravela, onde me mandou por capitão (…) E eu tinha um quadrante, quando fui a estes países, e escrevi na tábua do quadrante a altura do pólo ártico, e achei aí melhor que na carta (mapa). (…)

(Diogo Gomes, Relação do descobrimento da Guiné e da ilhas, 1462)

16. O reino de Preste João (paraíso terrestre)

(…) Ora, devendo fazer menção ao Império do Preste João, que é o maior e mais rico Príncipe que se encontra em toda a África, digamos, resumidamente, que (…) pode ter o Império deste Rei Cristão 4.000 milhas. A cidade principal (…) chama-se Babelmaleque; e o Estado é rico e abundante de ouro e prata e de pedras preciosas e de toda sorte de metal. A gente é de desvairadas cores, branca, preta e intermediária, de boa estatura e de bom parecer. Os cortesãos e Senhores trajam-se bem de panos de seda com ouro e pedraria (…) Na festa de Nossa Senhora de Agosto, ajuntam-se todos os Reis e Senhores principais (…) Celebra-se uma procissão muito solene; e, da Igreja, de onde sai, levam uma imagem da Virgem Mãe de Deus, grande como uma pessoa comum, toda de ouro; a qual imagem tem por olhos dois riquíssimos e grandes rubis; e todo o mais corpo da estátua é coberto e arraiado de pedraria e de lavores diversos; e é conduzida num andor de ouro (…)

Nesta procissão, sai em público o Preste João, num carro de ouro ou em cima de um elefante (…) todo adornado de jóias e de coisas preciosas e raras, vestido de tela de ouro; e é tanta a multidão de gente que concorre a ver aquela imagem, que muitos morrem sufocados pelo aperto. (…)

(Filippo Pigafetta, humanista italiano, e Duarte Lopes, comerciante português,
Relação do reino de Congo e das terras circunvizinhas, 1591)

17. O imaginário (monstros no oceano)

(…) Tinha somente a aparência de homem na cara, na cabeça não tinha cabelos mas uma armação, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram maiores que as de um burro, a cor era parda, o nariz com quatro ventas, um só olho no meio da testa, a boca rasgada de orelha a orelha e duas ordens de dentes, as mãos como de bugio, os pés como de boi e o corpo coberto de escamas, mais duras que conchas. (…)

(Relato do português Francisco Correia a respeito do naufrágio da nau
Nossa Senhora da Candelária, na ilha Incógnita, século XVII)

Extraído de

Texto para a turma do 5º termo – Disciplina: Prática de Ensino V

PANORAMAS E PERSPECTIVAS | História

Passado e presente, juntos, para ensinar

Os estudantes só aprendem a disciplina quando relacionam fatos, confrontam pontos de vista e consultam diversas fontes de pesquisa

Em todos os tempos, o ensino de História foi permeado por escolhas políticas. No Brasil, após a proclamação da República, em 1889, a construção da identidade do país tornou-se prioridade. As elites tinham de garantir a existência de um estado-nação, escolhendo para ser ensinado aos alunos conteúdos que exaltavam grandes “heróis” nacionais e feitos políticos gloriosos. Desde então, poucas mudanças aconteceram em termos do quê e como ensinar nessa área, e todas foram influenciadas, sobretudo, pelas visões de quem estava no poder. Para desenvolver a postura crítica da turma e dar aulas consistentes, é fundamental que o professor entenda esse processo. História é uma disciplina passível de múltiplas abordagens – que até há pouco tempo não estavam em sala de aula, mas que hoje devem ser vistas com destaque. Por isso, tornou-se premente o trabalho com diversas fontes e o relacionamento do passado com o presente para que se entenda que contra fatos há, sim, argumentos. Tudo depende do olhar que se lança sobre eles.

Foto: Isac dos Reis

panoramas e perspectivas

Quando os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549 e fundaram a primeira escola, só usavam os textos históricos como suporte para ensinar a ler e escrever e seus conteúdos sequer eram discutidos. Foi apenas em 1837 que o Colégio Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, instituiu a História como disciplina obrigatória e autônoma (leia a linha do tempo no box “O ensino de História no Brasil”). O foco era a formação da civilização ocidental e o estudo sobre o Brasil era apenas um de seus apêndices. Vale lembrar que a história bíblica também era um conteúdo a ser abordado – só sendo retirada do currículo em 1870, com a diminuição do poder da Igreja sobre o Estado.

Mitos pedagógicos

As metodologias da disciplina levaram à construção de alguns mitos. São eles:

– História é decoreba
A concepção de Educação que está por trás disso é a de que a aprendizagem se dá pela repetição da fala do professor ou do conteúdo do material didático. Grande equívoco.

– Não é preciso memorizar
Em reação contrária à idéia anterior, alguns educadores defenderam que não era preciso decorar nada. Porém saber datas e nomes ajuda a relacionar os fatos. Memorizar significativamente é diferente de decoreba.

– Uma lição de moral
A História nasce como disciplina escolar no Brasil em um contexto de criação da identidade nacional. Daí a idéia de que ela serviria para incutir princípios e valores nacionalistas.

– Um fato depois do outro
Não se sustenta a idéia de que para entender um período é preciso estudar o que veio antes dele. O aluno aprende com base em questões do presente, relacionando ao passado o que lhe é mais próximo.

– Existe apenas uma verdade
De inspiração positivista, esse mito parte da idéia de que os documentos oficiais e os fatos políticos são os fiéis guardadores da realidade. A idéia foi sendo derrubada ao longo do século 20, quando os historiadores, recorrendo a outras fontes documentais, descobriram diferentes interpretações sobre períodos e fatos.

A maioria dos professores do Colégio Pedro II era formada por membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, criado em 1838 e adepto de uma visão político-romantizada do processo de construção do Brasil. Além de pautar o ensino pela questão da identidade nacional de maneira ufanista, eles acreditavam que o ensino de História tinha o papel de formar moral e civicamente – um dos objetivos da disciplina na época e que está ultrapassado teoricamente.

Foto: Gustavo Lourenção, Rodrigo Erib

panoramas e perspectivas

FONTES DIVERSAS Para obter informações, vale entrevistar pessoas, visitar museus e pesquisar na internet

A metodologia utilizada era a tradicional (conheça outros métodos no quadro da página ao lado), que tinha como princípio levar os alunos a saber datas e fatos na ponta da língua. Também houve a influência do historiador prussiano Leopold von Ranke (1795-1886), que via a história como uma sucessão de fatos que não aceitavam interpretação. Segundo ele, pesquisadores e educadores deveriam se manter neutros e se ater a passar os conhecimentos sem discuti-los, usando para isso a exposição cronológica. Na hora de avaliar, provas orais e escritas eram inspiradas nos livros de catequese – com perguntas objetivas e respostas diretas.

O ensino de História no Brasil

1549
Os jesuítas chegam ao Brasil e fundam as primeiras escolas elementares brasileiras. Os textos históricos bíblicos eram usados apenas com o intuito de ensinar a ler e escrever.

1837
O Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, inclui a disciplina como obrigatória. Nesse ano também é fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que defende uma visão nacionalista.

1870
Com a diminuição da influência política da Igreja sobre as questões de Estado, os temas que têm como base as idéias bíblicas são abolidos do currículo.

1920
Escolas abertas por operários anarquistas tentam implantar a ótica das lutas sociais para entender a história. Mas elas são reprimidas e fechadas durante o governo de Arthur Bernardes, alguns anos depois.

1934
É criado o primeiro curso superior de História, na USP. A academia nasce com uma visão tradicionalista, reforçando a sucessão de fatos como a linha mestra.

1957
Delgado Carvalho publica a obra Introdução Metodológica aos Estudos Sociais, que serve de base para o processo de esvaziamento da História como disciplina autônoma.

1971
A História e a Geografia deixam de existir separadamente. No lugar delas é criada a disciplina de Estudos Sociais (empobrecendo os conteúdos escolares) e, ao mesmo tempo, a licenciatura na área.

1976
O Ministério da Educação determina que, para dar aulas de Estudos Sociais, os professores precisam ser formados na área, fechando-se assim as portas para os graduados em História.

1986
A Secretaria de Educação do Município de São Paulo propõe o ensino por eixos temáticos. A proposta não é efetivada, mas vira uma referência na elaboração dos PCNs, anos depois.

1997
Abolição de Estudos Sociais dos currículos escolares. História e Geografia voltam a aparecer separadamente. Especialistas começam a pensar novamente sobre as atuais especificidades de cada uma das disciplinas.

1998
Com a publicação dos PCNs, são definidos os objetivos da área. Entre eles está o de formar indivíduos de modo que eles se sintam parte da construção do processo histórico.

2003
O Conselho Nacional da Educação determina que a história e a cultura afro-brasileira sejam abordadas em todas as escolas, o que mostra uma iniciativa oficial para desvincular o ensino da visão eurocêntrica.

Fonte: Ensinar História no século XXI: Em busca do tempo entendido, de Marcos Silva e Selva Guimarães Fonseca

Racionalidade x patriotismo
Essa postura em sala de aula só seria questionada no início do século 20, quando operários anarquistas de São Paulo e Porto Alegre, que lutavam por melhores condições de trabalho, criaram escolas inspiradas na pedagogia do espanhol Francisco Ferrer y Guardia (1849-1909). Nelas, valorizavam-se a racionalidade e o cientificismo e não havia espaço para a exacerbação do patriotismo. A História era explicada por meio das lutas sociais e não pela construção do Estado. Novas fontes de aprendizagem, como visitas a museus e exposições, foram incorporadas com o objetivo de fazer o aluno pensar e não apenas decorar o conteúdo. Além disso, eram abordados temas como a Revolução Francesa antes do estudo sobre a Antiguidade, quebrando assim o paradigma da linearidade. As idéias revolucionárias, no entanto, foram pontuais e de pouca duração. As dez escolas com esse perfil foram fechadas com a pressão do governo de Arthur Bernardes (1875-1955), que sufocou os movimentos trabalhistas.

Fotos: Rodrigo Erib

panoramas e perspectivas

FATOS RELACIONADOS As referências entre passado e presente são essenciais para mostrar o processo histórico

O cenário ficou ainda mais complicado quando, em 1930, Getúlio Vargas, ferrenho nacionalista, subiu ao poder, ficando nele quase ininterruptamente até 1954. Nesse meio tempo, surgiram os primeiros cursos superiores de História, que nasciam compactuando com a visão tradicionalista. Os estudos de Jean Piaget (1896-1980) e Lev Vygotstky (1896-1934), contudo, começaram a ser divulgados, trazendo teorias que influenciariam a Educação no geral, ao considerar as hipóteses prévias das crianças sobre os temas abordados na escola. Sendo assim, as aulas puramente expositivas não funcionariam mais e a idéia de que aprender é decorar começou a mostrar sinais de fragilidade.

A ditadura militar, nos anos 1960, faria com que as propostas mais avançadas demorassem para germinar. Em 1971, as autoridades substituíram História e Geografia por Estudos Sociais nas séries iniciais. Havia o medo de que o potencial político e crítico que o conhecimento mais profundo daquelas áreas poderia trazer pudesse gerar reações revolucionárias. Segundo Circe Maria Fernandes Bittencourt, professora de pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, a fusão empobreceu os conteúdos de ambas as disciplinas, pois a ênfase agora estava no civismo.

Metodologias mais comuns

As maneiras de ensinar História que já estiveram ou ainda estão presentes na sala de aula são:

– Tradicional
Inspirada no método francês do século 19.
FOCO Memorizar os fatos em ordem cronológica, tendo como referência a construção dos estados-nação e a importância dos valores morais e cívicos.
ESTRATÉGIAS DE ENSINO Aulas expositivas, apoio de livros didáticos e estímulo à decoreba de datas, fatos e nomes.

– Anarquista
Surgiu depois da Revolução Francesa e da Comuna de Paris, na Europa, e da proclamação da República, no Brasil. Foi introduzida em algumas escolas brasileiras nos anos 1920.
FOCO Conhecer o movimento histórico pelas lutas sociais, desconstruindo a visão política e romantizada.
ESTRATÉGIAS DE ENSINO Visitas a museus para fazer pesquisas e estimular a reflexão crítica.

– Moderna
Baseada nas teorias cognitivas de Jean Piaget e Lev Vygotsky e na idéia de que se deve buscar abordagens diversas – sociais, econômicas, políticas e culturais.
FOCO Ensinar os alunos a ter uma visão crítica e a percepção de que não existe uma história verdadeira e única.
ESTRATÉGIAS DE ENSINO Proposição de eixos temáticos, consultas a diversas fontes e perspectivas para estabelecer a relação entre o passado e o presente.

As mudanças mais significativas, entretanto, começaram a se desenhar com a influência da Psicologia cognitiva, da Antropologia e da Sociologia. Essas duas últimas trouxeram, respectivamente, novos conteúdos e outras visões de fatos históricos – o que influenciaria a metodologia moderna de ensinar História. Além de ampliar o espectro de temas escolares – introduzindo, por exemplo, manifestações culturais locais — e de procurar diferentes versões, a metodologia moderna também se caracteriza pela ênfase na relação entre passado e presente, pelo rompimento com a linearidade e pela consulta a fontes de diversas naturezas. A partir dos anos 1980, cada vez mais professores foram tomando contato com essa nova forma de trabalhar (leia a entrevista à esquerda).

Hoje não se concebe o estudo histórico sem que o professor apresente diferentes abordagens do mesmo tema, fato ou conceito – iniciativa importante para que o aluno perceba que, dependendo da visão e da intenção de quem conta a história, tudo muda. Basta pensar no exemplo de como entender o processo de formação de um bairro: pode-se vê-lo sob a ótica dos trabalhadores da região e das relações estabelecidas pelos modos de produção, dos que estiveram no poder, dos grupos minoritários que habitam o local ou das manifestações culturais, entre outras possibilidades. Durante as aulas, é impossível apresentar todas as maneiras de ver a história, mas é fundamental mostrar que ela não é constituída de uma única vertente (e que, até mesmo dentro de uma delas, pode haver várias interpretações). O professor deve favorecer o acesso a documentos oficiais, reportagens de jornais e revistas e a outras fontes. O contato com essa diversidade leva o estudante a ter uma visão ampla e integrada da história. Além de textos, é recomendável que a turma consulte sites confiáveis, assista a filmes e documentários, visite museus e entreviste os atores que vivenciaram os acontecimentos estudados. Tudo com planejamento e registro para que seja possível fazer uma avaliação minuciosa do processo.

5 perguntas

Marcia Marin

Foto: Rodrigo Erib

marcia marin

Professora de História do 6º ao 9º ano da Escola Oswald Andrade, em São Paulo, conta como mudou a forma de ensinar.

Como você aprendeu História?
O professor usava textos e expunha os conteúdos e os alunos decoravam. Só reproduzíamos as versões dos livros didáticos.

Sua visão mudou na faculdade?
Lá aprendi novos métodos e percebi que era necessário me basear em fatos próximos aos alunos e valorizar a experiência deles. Mas não apliquei isso de imediato.

Como ensinava no início?
De maneira linear, pois o material didático era assim. Mas com a formação em serviço aprendi outras formas de trabalhar e passei a lecionar usando os eixos temáticos.

Que perspectiva usa hoje?
Peço que os estudantes explorem várias fontes para que compreendam a história como sendo um fruto de transformações.

Quais materiais utiliza?
Livros didáticos, filmes e revistas, mas estou sempre aberta a receber sugestões da turma.

Ontem e hoje
Estabalecer a correspondência entre passado e presente passou a ser um dos objetivos da disciplina (conheça algumas das expectativas de aprendizagem no quadro da página ao lado) nos anos 1990, com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Daniel Helene, selecionador do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, diz que relacionar os fatos ajuda na compreensão de que a História é um processo. Existe escravidão hoje em dia? Como ela era antigamente? “Isso deve ser feito de modo que o aluno entenda as transformações no decorrer do tempo. Essa também é uma forma de aproximar o conteúdo à vida do aluno – o que era impossível quando o conteúdo era transmitido cronologicamente. “Esse procedimento passava a idéia de que a história é uma evolução, o que não é verdade. Hoje o professor pode explorar as diferentes formas de lidar com a temporalidade e, assim, estimular a reflexão. O resultado é que, em vez de decorar informações sem sentido, os jovens são estimulados a analisar o que aprendem e a memorizar conscientemente”, afirma o consultor.

Foto: Reprodução

panoramas e perspectivas

DIFERENTES VERSÕES Os alunos devem ter facilitado o acesso a visões variadas sobre um mesmo fato

Desde a publicação dos PCNs, temas como ética e pluralidade cultural passaram a permear o ensino da disciplina, indicando mais uma mudança: se nos tempos idos o objetivo era fomentar a idéia de identidade nacional, ancorada na deturpação e romantização de acontecimentos, hoje o intuito é explorar as diferentes identidades que existem dentro de uma nação, tornando os alunos sabedores da diversidade cultural de sua época. Um desafio e tanto para os professores.

Expectativas de aprendizagem

As orientações curriculares da prefeitura de São Paulo recomendam que, ao fim do 5º ano, os alunos sejam capazes de:
– Relacionar espaço e tempo, construindo a noção cronológica e de periodicidade dos fatos.
– Identificar os sujeitos envolvidos nos diferentes tipos de acontecimentos (familiares, escolares e sociais).
– Perceber mudanças e permanências em hábitos culturais de povos e grupos no decorrer de determinado tempo.
– Estabelecer relações entre hábitos culturais tradicionais e contemporâneos.
– Reconhecer elementos dos modos de vida urbana e rural.
– Fazer relações entre atividades locais e acontecimentos históricos da cidade com a preservação da memória de indivíduos, grupos e classes, desde o Brasil Colônia até o presente.
– Apontar marcas do passado na paisagem da cidade, suas procedências e seus espaços de memórias (museus, exposições…).
– Distinguir o trabalho escravo do livre, expondo as diferentes relações entre os moradores da cidade na atualidade e em outras épocas.
– Conhecer e utilizar marcadores de tempo de média e longa duração (décadas e séculos) e situar a história do aluno no tempo e no espaço.
– Confrontar informações colhidas em registros diferentes, referentes aos mesmos acontecimentos históricos.

O documento prevê ainda que os alunos, ao fim do 9º ano, saibam também:
– Identificar transformações temporais quanto às formas diferenciadas de ocupação do espaço e às mudanças na paisagem pelas populações, desde a Antiguidade até o período contemporâneo.
– Apontar mudanças na organização social quanto às formas de produção de alimentos, de comércio e na utilização de recursos naturais em espaços diferenciados.
– Reconhecer a importância do patrimônio étnico-cultural e artístico para a preservação e construção de memórias e identidades.
– Coletar informações de fontes históricas, como textos, imagens, objetos, mapas urbanos e edificações.
– Localizar no tempo e no espaço as sociedades estudadas.
– Valorizar atitudes de respeito à diversidade étnica e cultural.
– Dar importância aos intercâmbios entre as diferentes sociedades e às negociações na mediação de conflitos.
– Conhecer as mudanças na organização dos espaços e os conflitos sociais nas cidades desde o período colonial brasileiro até a atualidade.
– Dar importância à preservação do patrimônio histórico urbano.
– Identificar transformações técnicas na produção e nas relações de trabalho vindas com a Revolução Industrial.
– Comparar a organização social e o espaço urbano das primeiras cidades industriais com o município em que se vive, inserindo-o na organização política e territorial brasileira.
– Conhecer o processo de organização das nações européias, de independência política do Brasil e de construção do Estado nacional brasileiro.
– Estabelecer uma relação entre política e cultura, expressa em diferentes manifestações religiosas, artísticas e educacionais.
– Identificar as lutas políticas e sociais da população do município e os espaços de participação pública atuais.
– Conhecer a organização da república brasileira.
– Identificar os poderes econômicos e institucionais atuais no município.
– Reconhecer a importância dos movimentos sociais pela igualdade de direitos.

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
Ensinar História no Século XXI: Em Busca do Tempo Entendido, Marcos Silva e Selva Guimarães Fonseca, 144 págs., Ed. Papirus, tel. (19) 3272-4500, 32,50 reais
Ensino de História: Fundamentos e Métodos, Circe Maria Fernandes Bittencourt, 407 págs., Ed. Cortez, tel. (11) 3864-0111, 45 reais
História e Ensino de História, Thais Nivia de Lima e Fonseca, 119 págs., Ed. Autêntica, tel. (31) 3222-6819, 31 reais

Extraído de – http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0218/aberto/passado-presente-juntos-ensinar-404108.shtml

Aos alunos do terceiro semestre de História e Geografia

1492 – A Conquista do Paraíso – Superando as barreiras

Um dos grandes desejos da humanidade sempre foi o de transpor barreiras, principalmente aquelas que pareciam fadadas a perdurar, a existir para sempre, impossíveis de serem derrubadas. Quando as cidades italianas dominavam o Mar Mediterrâneo, entre o final da Idade Média e o início da modernidade, e de forma inclemente impediam as demais nações européias em formação de trafegar por essa região, parecia aos homens de então que superar os medos, os mitos, as distâncias e o poder dos árabes (e de seus aliados italianos) era algo tão distante e inatingível quanto chegar a Lua.

O que os fazia superar todas as dificuldades era o ardente desejo de atingir as fontes das tão badaladas especiarias (cravo, canela, gengibre, pimenta do reino, noz moscada,…) e, dessa forma, garantir para seus próprios reinos, fortunas incalculáveis provenientes do comércio desses produtos em terras européias.

Portugueses, espanhóis, ingleses e franceses não tinham idéia de como seu empenho iria mudar a face do planeta. A América era ainda uma terra desconhecida, povoada por diversos grupos indígenas, alguns dos quais vivendo em níveis civilizacionais muito evoluídos (como os Astecas ou os Incas), outros (entre os quais se incluem os grupos que viviam no Brasil), segundo relatos dos próprios europeus que aqui chegaram no início do século XVI, pareciam viver no Paraíso Terrestre (o Éden).

A envergadura de tão grandiosa conquista ganhou em 1992, em virtude da comemoração mundial em torno dos 500 anos do “descobrimento” da América, um filme da autoria do diretor inglês Ridley Scott (responsável por filmes cultuados como “Os Duelistas”, “Blade Runner” e “Gladiador”).

Uma das grandes qualidades dos trabalhos de Ridley Scott é o apuro visual com que realiza suas obras, caracterizadas por efeitos visuais de primeira qualidade, locações que tentam nos passar uma idéia clara do ambiente em que ocorreram os acontecimentos, figurinos baseados em pesquisas aprofundadas sobre os padrões de vestuário do período e reprodução de objetos e artefatos característicos das épocas que procura apresentar em seus filmes.

Com as atenções internacionais voltadas para o produto final de seu trabalho, Scott fez com que “1492 – A conquista do Paraíso” viesse a ser um épico de grandes qualidades, principalmente nos quesitos em que é mestre (figurino, locações, reprodução de época,…). Além disso, contou com o apoio da música de Vangelis para dar uma aura mais clara de vitória, conquista e êxtase, assim como de religiosidade, a chegada de Colombo a América. 

A atuação de Gerard Depardieu como Colombo é convincente, assim como a história que nos é contada. Tudo começa com a grande luta que o navegador teve que empreender para conseguir o apoio necessário para realizar sua viagem, sofrendo restrições por parte dos religiosos, enfrentando o desdém dos políticos e a indiferença dos comerciantes. Somente com o apoio do banqueiro Santangél e da rainha Isabel da Espanha (protagonizada por Sigourney Weaver, um tanto quanto deslocada no papel) foi possível reverter sua perspectiva e permitir que ele viesse a increver seu nome na eternidade.

O grande mérito do filme reside em nos colocar lado a lado com a trajetória de Cristóvão Colombo, acompanhando-o nas caravelas, sofrendo com ele os reveses de uma viagem longa e desgastante e triunfando com o desembarque em terras americanas em 1492. A seqüência da chegada é deslumbrante, os homens se jogando ao chão, os passos de Colombo, as cores das bandeiras e os sons que acompanham esse momento permitem-nos entender como foi grandioso esse acontecimento (a magia do cinema reside em dar ao espectador a oportunidade de vivenciar situações como a da chegada dos europeus na América, dando a esse momento um certo glamour, uma sensação de realização, de grandiosidade; se pudéssemos estar vendo Colombo no instante em que desembarcou, provavelmente ficaríamos desapontados, faltariam os quesitos que tornam os filmes tão charmosos e encantadores).

Como a história dos homens é marcada por vitórias e derrotas, os momentos de sofrimento e humilhações também aparecem no filme. Colombo passou rapidamente de homem festejado a inimigo do estado, seus méritos como navegador foram considerados como indiscutíveis, porém, sua capacidade como administrador deixou muito a desejar. Seus projetos em terras americanas foram grandes fracassos e, as despesas que realizou tornaram-no indesejado na corte espanhola.

Como aula de história o filme funciona bem, cabe ao professor destacar os aspectos relacionados à liberdade artística e a capacidade de criação de diretores, atores e roteiristas de forma a mostrar que, por mais que se tente reproduzir da forma mais aproximada possível um longa-metragem e um acontecimento histórico, muitas são as diferenças e as lacunas não preenchidas.

Além do mais, na análise da história, muitas são as interpretações e várias foram às obras produzidas sobre cada tema. Vale a pena ver, mas, deve-se ter em mente a necessidade de procurar e ler material de apoio para comparar as imagens com o que foi escrito!

Ficha Técnica

1492, A Conquista do Paraíso
(1492, Conquest of Paradise)

País/Ano de produção:- EUA/Fra/Esp, 1992
Duração/Gênero:- 140 min., drama/épico/aventura
Disponível em vídeo e DVD
Direção de Ridley Scott
Roteiro de
Elenco (vozes):- Gérard Depardieu, Sigourney Weaver, Armand Assante,
Fernando Rey, Angela Molina, Tcheky Karyo.

Links

http://epipoca.uol.com.br/filmes_detalhes.php?idf=138

http://www.adorocinema.com.br/filmes/1492/1492.asp

Texto extraído de: http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=9