Sobre o ensino de história das antigas civilizações – parte 1

MÍDIA & EDUCAÇÃO
O ídolo das origens na pesquisa do ensino

Por José Alexandre Silva em 27/7/2010

O historiador francês Marc Bloch, antes de ser fuzilado pelos nazistas nas proximidades de Lyon, fez um mea culpa na sua obra póstuma Apologia da História. A razão das escusas é pelo fato de, como homem de história que era, possivelmente ter cedido ao culto do ídolo das origens. Em outras palavras, ainda as suas, a tentação de explicar o mais próximo pelo mais distante. A observação de Bloch vem sendo ratificada há várias gerações de professores de História e historiadores e ainda assim continuamos prestando nossa reverência ao ídolo das origens.

Num texto de opinião, "A hora e a vez da História", na revista História Viva e reproduzido em várias publicações, o historiador Jaime Pinsky se revolta contra um movimento de escolas que abandonam o ensino de história das civilizações pondo em seu lugar uma espécie de história da atualidade, posterior ao século 19. Sua argumentação se encaminha na direção de que devido a um pragmatismo neoliberal foi diminuído o número de aulas de história e que alguns professores, em nome de um ensino supostamente crítico, estão tirando a possibilidade de os alunos terem uma visão mais abrangente da história. Um belo tributo ao ídolo das origens.

Em entrevista ao jornalista Carlos Haag, da revista Pesquisa Fapesp, três historiadores, Pedro Paulo A. Funari, Renata Senna Garraffoni e Glaydson José da Silva, falaram sobre a relevância do estudo de História Antiga. As perguntas benevolentes do entrevistador se referiam à relevância e à viabilidade da pesquisa em História Antiga no Brasil. A resposta dos historiadores em linhas gerais enfatiza a importância de se conhecer as sociedades que deram origem ao nosso direito, à nossa língua e outras instituições importantes. Vale lembrar que os pesquisadores acima dedicam suas carreiras à pesquisa de História Antiga tendo sido financiados por órgãos de fomento nacionais e internacionais. São como que sacerdotes do ídolo das origens.

O ídolo tem cadeira cativa

30 de julho é o prazo final dado pelo MEC para os professores de Ensino Fundamental de todo país escolherem os livros, dentre os quais os de História, do Programa Nacional de Livros Didáticos para o triênio 2011-2013. 15 coleções de livros foram postas à escolha dos professores e todas reverenciam o ídolo das origens. 94% das coleções são denominadas história integrada e 6% de história temática. A organização dos conteúdos no grupo maior é linear e mesmo que não se mencione utilizam o que é chamado de quadripartição histórica: História Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Intercaladas a essas divisões temporais se incluem conteúdos de História do Brasil, da América e africana e afro-brasileira. Em todas as coleções livros inteiros são dedicados à história das origens do mundo ocidental.

Certamente é inviável mensurar a quantidade de pesquisas que possam estar sendo financiadas por órgãos de fomento à pesquisa sobre Antiguidade ou Idade Média. Questionar se seria mais proveitoso destinar tais verbas para pesquisas referentes à nossa realidade nacional não é sucumbir a uma pedagogia nacionalista, mas direcionar o talento dos pesquisadores para questões referentes à nossa realidade e ou à realidade latino-americana. Não se trata de nacionalismo exacerbado ou de negar a importância da história de outros países. Afinal é com os pressupostos teóricos e metodológicos de historiadores franceses, ingleses, alemães ou italianos que os brasileiros foram treinados. A questão é se debruçar mais sobre a nossa história.

Seja no ensino, na pesquisa, na mídia ou no mercado editorial de livros didáticos e não didáticos de História, o ídolo das origens tem cadeira cativa. Tem também uma rede vasta de acólitos e sacerdotes sempre a postos para a manutenção de seu culto. São professores, historiadores, jornalistas e editores dispostos não só a lhe prestar reverência como também a angariar novos seguidores. O ídolo não se contenta com origens nacionais, mas com as origens da civilização, que remonta a milênios. Questionar a fé no ídolo das origens é questionar a viabilidade da pesquisa e do ensino e da difusão de histórias tão longínquas ao que é propriamente nosso.

Extraído de: http://observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=600FDS004

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