Você acredita, não é mesmo?

Será que existe realmente um abismo entre nós? Somos professores!!! Eu me  espelho em você, te ouço, dialogo, divido angústias, faço reclamações, compartilho vitórias, comemoro sucessos. Vivemos realidades próximas, temos posicionamentos ambientados em um mesmo contexto, compartilhamos tendências pedagógicas, sejam elas piagetianas, vygotskyanas ou freirianas, e até mesmo construímos, sob um mesmo prisma, reflexões sobre o que fazer com um aluno que não consegue aprender ou mesmo sobre uma sala que insiste em se manter indisciplinada…

Nesse ínterim que parece tão próximo, a questão que se coloca é: temos as mesmas perspectivas? Os mesmos sonhos? As mesmas crenças? Compartilhamos da mesma utopia? Temos os mesmos ideais? O que queremos na educação?

Sempre imaginei a possibilidade da emancipação da pessoa através da liberdade e da igualdade, e que, através dessa interligação, a justiça social brotaria pelo processo educativo. Escolher ser professor foi uma tentativa de pensar um mundo diferente, acreditando na construção de uma sociedade que combatesse a desigualdade, o individualismo e a alienação daqueles que estivessem envolvidos diretamente no processo de educar.

Partindo desse prisma você exulta: pensamos de forma parecida!!! É possível transformar a sociedade pela educação!!! Temos o mesmo projeto: acreditamos que a educação é a energia necessária para a grande revolução social!!!

O problema é que no contexto em que estamos inseridos os acontecimentos não são tão óbvios e simples assim… Precisamos entender a complexa rede em que a educação está inserida, principalmente quando assume o status de paradigmas associados à divisão das classes sociais, do não acesso aos bens duráveis, da falta de qualidade de vida, da ausência da inclusão social, da falta de perspectivas de futuro e na ação avassaladora sempre presente neste início do século XXI: a força do mercado e suas conjunturas.

Insisto em te fazer pensar: somos o tudo ou o nada? O pouco ou o muito? A diferença ou a igualdade? A soma ou a subtração? Na verdade, quando assumimos que somos sujeitos históricos de uma determinada estrutura, aceitamos que podemos compartilhar alguns denominadores comuns… Um deles está presente nas obras de Jean Paul Sartre, que afirma que quando  nos inserimos na evolução histórica, ganhamos a esperança e com ela as forças determinantes das revoluções e insurreições. Eduardo Galeano também apresenta sua contribuição quando faz referência à questão da utopia. Segundo ele, quando temos pensamentos utópicos, começamos a acreditar na força do horizonte, e a crença na sua existência nos faz caminhar, nos tirando da zona de conforto e do comodismo que muitas vezes impera no ser humano.

Na labuta diária, talvez tivéssemos algo para nos unir ou separar: a aposta no futuro!!! Na verdade, acho que esse seja o nosso divisor de águas, tornar-se professor me fez acreditar que o êxito no processo ensino-aprendizagem passa obrigatoriamente pela incrível capacidade de subvertermos a nossa própria história futura. Acreditar no futuro é termos razões que estão acima da luta e da esperança, é algo que está presente em nossas experiências diárias, algo que vai além de uma atividade banal, de um exercício irrelevante ou de uma resposta boçal de nossos alunos. Apostar no futuro, é segundo Philippe Meirieu não cruzar os braços, é construir um horizonte respaldado na inteligência e na liberdade, é assumir nossa cultura, é enfim, a reinvenção do possível e a solidariedade do coletivo.

Agora se você professor, após a reflexão, percebeu que não há nenhum abismo entre nós, dê uma volta ao seu interior e redescubra a partir de sua própria essência, a retomada do seu projeto de ensinar. Encontre no seu ofício as razões para não perder suas esperanças e aposte no futuro. Não se esqueça, nós somos o futuro!!! Junte-se a nós!!! Eu acredito nisso… Você também, não é mesmo?

Fabio Augusto de Oliveira Santos é professor na rede pública e privada de ensino e defensor de uma educação de qualidade.

Você me ajuda? Ou Reflexões sobre o Replanejamento…

Dois dias reunidos na escola pensando sobre quais seriam os passos corretos que daríamos para desempenhar ao máximo nosso papel como educador me fez construir uma reflexão sobre a eficácia do meu trabalho enquanto docente.

Para tanto trago nessa reflexão meus 13 anos de experiência na docência da rede pública, somada as leituras realizadas ao longo da minha formação profissional. Buscando me apoiar em um referencial bibliográfico, lembrei-me do educador francês Philippe Meireu e de sua obra, Carta a um jovem professor, publicado no Brasil pela Artmed em 2005.

No seu texto, em especial, no capítulo 4, titulado “Queremos ser eficazes, mas não em qualquer condições”, P. Meirieu evidencia que o processo de aprendizagem do aluno passa necessariamente por uma verdadeira operação mental e não por uma aquisição de reflexo condicionado, sustentado e escorado em regras prontas que o aluno não consegue compreender.

Tal afirmação apresentada pelo autor, me obriga a realizar uma inferência no tocante a minha prática docente. Até sei elaborar uma sequencia de aprendizagem, uma situação-problema, um problema-aberto ou uma auto-socioconstrução de saberes. Mas meu questionamento vai além, a minha dúvida é como meus alunos poderiam apropriar-se do conhecimento que eles necessitam para suas vidas cotidianas?

Partindo desse pressuposto e tentando ser eficaz em minhas aulas, em minha produção, em meus números, fiquei aqui também a pensar nos “riscos da didática a qualquer preço”. Segundo P. Meirieu, existe um perigo na busca obstinada pela racionalização das aprendizagens. “Algo como uma necessidade de apoderar-se do espírito do outro e de dirigí-lo em tempo real.”

Pensando nisso, acredito ser possível repensar minha prática docente e a tal eficácia do meu trabalho. Gostaria de me importar com algo que vai além de indicativo/indicadores de êxitos escolares. Que tal um outro olhar, um outro prisma? Que tal calcular a prática da cidadania entre meus alunos? Que tal conseguir avaliar suas capacidades de argumentações quando são injustiçados? Ou mesmo que tal avalia-los quando os encontro nas ruas e falam como pessoas e não como alunos?

Buscando essa situação, talvez realmente seja necessário repensar o sistema avaliativo da nossa escola… Quem sabe encontraríamos mecanismos para mensurar a busca da verdade, o pensamento crítico, a referência a história e a cultura, o cuidado com a precisão e a perfeição e o acesso a autonomia dos nossos alunos?

Talvez pensar a escola diferente seja uma postura utópica ou a crença em uma  grande epopéia. Mas, por outro lado, acredito que todos damos o nosso melhor dentro da escola, porém não podemos continuar e nos manter alheios às imposições que ainda se faz, cada vez mais presente, no âmbito educacional dos famigerados modelos liberais de ensino. Devemos continuar o nosso projeto de ensinar!!!! Esse foi um primeiro passo… Você me ajuda?

Prof. Fabio Augusto de Oliveira Santos